
Fernando Sabino, Colônia-Alemanha, maio de 1959. Fotógrafo não identificado/ Arquivo Otto Lara Resende/ Acervo Instituto Moreira Salles.
Este é um mês de comemoração dupla para Fernando Sabino. Nascido em 12 de outubro de 1923, faça as contas, o escritor mineiro completaria agora 103 anos. E o romance O encontro marcado, sua obra-prima, alcança a marca redonda de sete décadas. Com a licença do leitor do Portal da Crônica, mais chegado a prosas curtas, hoje trataremos de uma obra incontornável da literatura brasileira.
O encontro marcado foi escrito quando Sabino, entre os 30 e os 32 anos, encerrava um casamento, arrematava a juventude e começava a encarar a maturidade. Essas são as questões centrais da história de Eduardo Marciano e sua educação sentimental – uma intensa busca existencial por si mesmo e pelos sentidos da vida. Desde que foi publicado, o livro nunca esteve fora de catálogo, e atualmente se encontra na 105ª edição.
Com uma “agilidade não apenas de estilo, mas da técnica de dizer e de contar”, como observou Otto Lara Resende, o romance formou sucessivas gerações de leitores e escritores. “Você achou a palavra leve, a frase límpida, o ritmo discreto da prosa, que só se alcança quando se consegue atirar para longe todo artifício e brilho aparente”, escreveu Carlos Drummond de Andrade ao colega. Trata-se de uma amostra perfeita daquilo que Hélio Pellegrino chamou de “A difícil arte de escrever fácil”. De fato, o princípio do autor foi o de sempre escolher, entre duas palavras, a mais simples, e entre duas palavras simples, a mais curta.
Nessa linguagem transparente, o crítico Silviano Santiago identificou a inauguração de um modo norte-americano de escrita entre nós, encerrando um longo e velho ciclo de influência francesa. Faz todo o sentido: Fernando era apaixonado por cinema, leitor de romances policiais, baterista de jazz e, durante dois anos da juventude, morou em Nova York – foi lá, aliás, que começou a escrever crônicas para complementar a renda, embora preferisse classificar tais textos como pequenos contos, exercícios de fabulação.
Antonio Candido viu um “moto-contínuo da alma ofegante” no romance, atravessado por um espírito irrequieto “desabalado entre as coisas, as pessoas e as situações”. Caio Fernando Abreu, de outra geração, disse que O encontro marcado foi uma virada de chave na decisão de tornar-se escritor. Dalton Trevisan ficou espantado com as qualidades formais da narrativa, especialmente com a naturalidade dos diálogos, como se lê em carta do Correio IMS. Aos 13 anos, Glauber Rocha ficou em estado de “quase delírio” com os movimentos de Eduardo Marciano. Clarice Lispector, correspondendo-se com o amigo, foi direta: “Seu livro, tão duro, é muito bonito”. Só Rubem Braga, meio ranzinza, não se entusiasmou muito – sentiu falta de mais “substância lírica”.
Sem dúvida, da vasta obra de Fernando Sabino, essa é a sua grande realização. Dos escritores do Portal, ele foi o que mais a sério encarou o ofício. Em maior ou menor medida, praticou quase toda modalidade de prosa – fez romance, reportagem, perfil, crônica, conto, novela e até uma controversa biografia. Rigorosamente profissional, escrevia todo dia, com ou sem inspiração, e chegou a registrar em cartório que, depois de morto, se publicasse apenas o que, em vida, tivesse posto em livro. Organizou a sua “obra póstuma antecipada”.
Com tamanha dedicação à literatura, é surpreendente que sua biografia abarque tantas e tão diversas atividades. O pertinaz escriba foi também campeão de natação, baterista de jazz, cineasta, jornalista, adido cultural e editor de livros. Antes disso tudo, foi também “vendedor de relógio elétrico de parede” e “professor de taquigrafia”, lembra o amigo Otto em crônica sobre profissões de escritores. Na seara dos livros, em sociedade com Rubem Braga, esteve à frente da Editora do Autor (depois Sabiá). A casa publicou diversas antologias de crônica e foi essencial para estabelecer o gênero no mercado. Paulo Mendes Campos escreveu sobre os bastidores da empreitada, que envolveu até o filósofo Jean-Paul Sartre, em “Uma editora alegre”.
Tantas décadas depois, cá estamos, celebrando Fernando Sabino e honrando o encontro marcado que temos com sua obra. Um encontro sempre renovado, capaz de manter intacto o encanto que atravessa o tempo e segue conversando com sucessivas gerações.