
Bicicletas, Amsterdã, Holanda, s.d. Foto de Otto Stupakoff/ Acervo Instituto Moreira Salles.
De Copa do Mundo, até quem não é chegado em futebol periga gostar. A festa do encontro de culturas é tão grande, e tão cheia de gente diferente, que a celebração ultrapassa as quatro linhas do campo e arrebata os corações. Agora que estamos perto do fim do torneio, antes que alguma seleção erga a taça e baixe as cortinas do espetáculo, vamos acompanhar nossos cronistas flanando por terras estrangeiras.
Em “Amsterdã”, José Carlos Oliveira registrou impressões sobre a capital holandesa e seus muitos canais, onde “há barcos que são casas”, e “atrás de cujas janelas imaginamos um velho marinheiro a fumar cachimbo”. Lá, “onde começa a Europa estrangeira”, a noite é uma ametista, as casas são de brinquedo e uma claridade ofuscante emoldura as manhãs – a mesma que se vê nas telas de Rembrandt, Van Gogh e Vermeer. Para dar conta daquelas “visões de beleza acompanhadas da intuição de um mistério”, a prosa se mostrou insuficiente, e o brasileiro desejou ser poeta.
Certa vez, conduzindo um automóvel pelas estradas do interior da Alemanha, Antônio Maria parou no posto da cidadezinha de Blankenheim, a mais de 600 quilômetros de Berlim. Enquanto o frentista completava o tanque e um menino calibrava os pneus, uma alemã deu um doce a um cachorro e fez-lhe uma pergunta, que ficou sem resposta. Ela tentou saber do cronista “o que o cachorro não lhe soubera explicar”. Maria respondeu, em português, que a melhor maneira de se entenderem seria o silêncio. Ela riu do som de suas palavras, ele riu de sua risada, o menino dos pneus riu da situação e o frentista, para não ficar de fora, juntou-se ao coro dos contentes. Outras passagens de sua road trip estão registradas na crônica “Três lembranças”, incluindo uma deliciosa avaliação gastronômica.
Da primeira vez em que esteve por “Portugal”, Rubem Braga, neto de lusitanos, ficou comovido pela gentileza de seu povo. Encantou-se pela beleza de Lisboa e de Porto, onde viu alguns miúdos andando pela rua com um pé descalço e o outro calçado. Indagados, os meninos explicaram que era para economizar sola. E que, por eles, andariam devidamente descalços, com os dois pés no chão; mas a ditadura de Salazar obrigava o uso de sapatos – ou melhor, de sapato, no singular.
Rachel de Queiroz conheceu bem alguns países da Europa. Da “Suíça”, no entanto, não aproveitou muito de sua breve passagem. Atravessando o país de trem, da janela viu montanhas verdes com um “algodoado de neve bem no alto”, vales, chalés e rebanhos. Tudo exalava um “ar permanente de prosperidade e gordura” – menos o incidente que testemunhou em Genebra, durante uma das paradas, envolvendo a soltura ilegal de um robusto crocodilo americano nas águas límpidas do lago Léman.
Em 1965, Otto Lara Resende integrou uma comitiva de jornalistas convidados a conhecer as indústrias da Escandinávia, num desses acordos diplomáticos entre governos. O programa era puxado e incluía visitas a fábricas subterrâneas, vistorias em fazendas do interior e, um pouco mais emocionante, viagens de avião supersônico. Otto encheu quase 80 páginas de um caderno com observações sobre as capitais da Dinamarca, da Finlândia, da Noruega e da Suécia. O documento está disponível na íntegra, amparado por um ótimo texto da escritora Elvia Bezerra – não deixe de ler.
Quase três décadas depois, o escritor retomou a viagem na crônica “Também já estive lá”, especificamente sobre a Suécia. Em Estocolmo, onde teve a impressão de ser invisível, ninguém olhava para ninguém. Uma pomba pousou em seu ombro por pena, mas sequer repararam. Enquanto os colegas aproveitavam ofertas das gôndolas suecas, Otto limitou-se a adquirir um par de sapatos. E toda vez que partia de um hotel, tentava livrar-se dos velhos, abandonando-os de propósito no quarto. Mas aonde chegava, lá estavam também as solas gastas, despachadas por algum funcionário da excursão. “O Primeiro Mundo tem um respeito religioso pelos sapatos velhos do Terceiro Mundo”, concluiu o cronista.
Tudo muito bonito, mas com todo o respeito ao restante do globo, para o brasileiro resta a torcida de que, durante a próxima Copa, o assunto do rés do chão não seja nada além da comemoração de nossa tão desejada sexta estrela.