Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 1/02/1966.

Em Amsterdã, como em Londres, a noite é uma ametista. Nos seus mais de duzentos canais há barcos que são casas, atrás de cujas janelas imaginamos um velho marinheiro a fumar cachimbo. Em Amsterdã há um segredo que todos escondem; ali começa uma Europa sombria (não é esta a palavra), cuja curiosidade sexual, levada à exasperação na Suécia, recorda com esmagadora nitidez a tentação de Eva. Na Holanda começa a Europa estrangeira: estamos em outro país e vemos outro povo: tudo aqui é diferente do nosso país e do nosso povo.

A Holanda é rente ao chão, suas casas são de brinquedo, ofuscadora a claridade de suas manhãs. O drama (ou segredo) que seus habitantes escondem só eclode assustador, sombrio, magnífico, nas telas: de Rembrandt ou de Van Gogh. Aqui a claridade come os telhados com seus dentes vagarosos: o espaço desce como um corvo do céu, e assola as ruas; é uma tempestade, as casas tremem, é um terremoto de luz.

Essa claridade está contida num quadro de Vermeer de Delft. Algumas figuras no primeiro plano: o canal; um barco; o cais; as fachadas; e acima de tudo a claridade que denuncia como mentirosas as sombras de Rembrandt, Proust dizia que este é o mais belo quadro jamais pintado, e Van Gogh: “É simplesmente inacreditável”. Pois bem... eu tive a impressão de que Deus existe, isto é, Vermeer viu a Justiça, cuja visão Rimbaud considerava um privilégio unicamente de Deus. É preciso ir à Holanda.

Amsterdã, Haia, Delft. Noites de ametista, manhãs em que a claridade vem faminta, e algum segredo horrível boia nesses canais. À noite as moças de pouca virtude vão para a vitrina e os homens passam, contemplam, escolhem. Elas ficam sentadinhas atrás do vidro, quietas, lendo ou bordando; e os homens passam, contemplam, escolhem. É preciso ir à Holanda.

Diante de certas experiências, a prosa se revela estranhamente pobre. Diante de certas visões de beleza acompanhadas da intuição de um mistério, a língua acostumada a falar sem temperança se descobre gaga. Em Amsterdã, eu queria ser poeta.

jose-carlos-oliveira