Ventos de maio

Rua arborizada, São Paulo-SP, circa 1943/ Foto de Thomaz Farkas. Acervo Instituto Moreira Salles.

“Estamos em Maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia”, escreveu Lima Barreto embalado pelo frescor daquele momento de 1911. Desde pelo menos os gregos antigos, o período é celebrado como hora de colheita, fertilidade e purificação sob as égides de Apolo, divindade chegada em luz, música e beleza. Para o nosso escritor, ele mesmo filho de maio, o momento trazia ainda doces recordações de sua meninice.

Bem no dia de seu aniversário de sete anos, em 1888, o jovem Lima foi levado pelo pai ao Largo do Paço, atual Praça XV de Novembro, no Rio de Janeiro, para testemunharem o mais importante acontecimento histórico de seu tempo: a proclamação da Lei Áurea. Diante de um velho casarão, uma turba agitada aguardava a assinatura da princesa Isabel. Assim que a regente do Império terminou o seu autógrafo, a multidão recebeu a notícia de que estava extinta a escravidão. Houve farra, missa, desfile; “houve o barulho de bandas de música, de bombas e girândolas”. A festa foi tamanha que era como “se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez”.

Para aquela criança desavisada do horror e da injustiça do cativeiro, a noção de liberdade se restringia a uma ideia alegre e difusa de que tudo era permitido, nada era impossível – “que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia”. Mas o tempo passa e o adulto vai se engalfinhando “nas teias dos preceitos, das regras e das leis”. As esperanças perdem a cor e é preciso que venham ventos frescos, como são frescos os ventos de maio, o “mês augusto e sagrado pela poesia e pela arte”, para regenerá-las. Para fazer brotar nos galhos amputados da alma “brotos muito verdes, de um claro e macio verde de pelúcia”, ainda que seja certo o seu ressecamento “antes mesmo de chegar o tórrido dezembro”.

Antônio Maria também escreveu sobre vivências da infância em maio. São muitas as lembranças do menino Tombinha, como era chamado no âmbito familiar, do tempo em que pôde desfrutar do império do avô, proprietário de uma extensa rede de engenhos em Pernambuco, desfeita num instante com a queda súbita do preço do açúcar em 1946. Em “Maio e mãe, mãe e maio”, lemos uma reconstituição sinestésica dos rituais religiosos em favor da Virgem Maria, a quem a tradição católica dedica o mês.

Quando a tardezinha caía, todas as mulheres dos entornos, fossem abastadas ou criadas, reuniam-se nos fundos da casa-grande, no “quarto dos santos”, e aguardavam em largos bancos de madeira a chegada da senhora do engenho para conduzir as cerimônias.

De fita vermelha, mantilha negra de rendas e um pesado exemplar do Adoremus nas mãos, a senhora, mãe de Antônio Maria, despontava com gravidade. Em seu rastro, “uma música lenta, majestosa, que não se ouvia, mas se sentia”. As moças se levantavam até que a autoridade se acomodasse no genuflexório. E então começavam as rezas. Orações, terços, ave-marias e ladainhas. Muitos gestos de flores e cheiros de velas se encrustaram ali, no quarto dos santos e na memória do jovem Tombinha, que a tudo assistia em silêncio.

Um pouco antes de maio, a partir da segunda metade de abril, quando o outono já firmou o seu reinado, começam “Os dias lindos”, sobre os quais o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu com singular doçura. A temperatura mais amena demanda a revista do vestuário de verão, e a pele, com o “mínimo de agasalho”, recebe contente a chegada dos novos ares.

No céu, reaparece “o azul correto” – isto é, o azul azul, que “há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço”. A cor fica mais cor, e os raios de sol pousando nos objetos têm “alguma coisa de carícia”. Em uma lindíssima carta aos nascidos em maio, incluída na primeira edição de “Passeios na ilha” e disponível no Correio IMS, o poeta saúda os bem-aventurados filhos deste mês, que “caminham ao peso de uma carga suave” – “o pressentimento, a intuição de participarem de um segredo atmosférico, pois ele está gravado, em hieróglifos, no ar, e no vento perpassa”.

Aos dias lindos de maio é preciso fazer justiça e “oferecer-lhes nossa gratidão”. Vivê-los de braços abertos, com “boa disposição de espírito” e aceitar que nos integrem “num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente”. Aproveitemos o restinho desta folha do calendário.