Bem (ou nem tanto) na foto

Hildegard Rosenthal trabalhando no ampliador, ao lado de bandeja de café, São Paulo-SP, 1942 circa. Foto de Hildegard Rosenthal/ Acervo Instituto Moreira Salles.

É bem possível que Paulo Mendes Campos sofresse de – vá desculpando a brincadeira com as palavras – insônia crônica, pois foram muitas as ocasiões em que tomou o tema como assunto em seus escritos. Numa delas, o sono decepado pôs para rodar um filme, não na televisão, como fazem tantos em madrugadas de vigília incontornável, e sim na inesgotável cinemateca da memória. Pois sua insônia, contou ele, vinha a ser “um vasto mural no tempo, composto de quadros díspares e desordenados”, cuja unidade era “um fiozinho mínimo e invisível dentro da Noite”: o próprio Paulo. Um filme que, daquela vez ao menos, principiava com uma fotografia em que, menino, ele posava ao lado da mãe, junto ao muro de um cemitério, Freud explicaria? Abriu-se ali um desfilar de imagens, algumas delas insistentes, obsessivas – em especial, reiterado nove vezes, um buquê de enigmáticas “flores amarelas”, as quais, “batidas pelo vento, rolando pelo mundo”, vieram conferir uma carnadura de poema em prosa a essa crônica.

Se para Paulo Mendes Campos o filme da memória rodava em noites de insônia, para Rubem Braga foi em sonho que lhe veio certa menina, “A longamente amada”. Lá estava ela, no mais fundo do passado, “numa velha canoa, na praia”, tendo nas mãos, prestes a ser presenteada, uma fotografia com dedicatória em “letra suave de ginasiana” e “sincero afeto”. Imagem ainda mais antiga, talvez, que outra relíquia igualmente digna de ser conservada durante uma vida inteira, seja no álbum da memória ou naquele propriamente dito: a de um time de futebol, a equipe de que ele, Rubem, “um rapazinho feio, de ar doce e violento”, foi “o valoroso meia-direita”, conforme registrou um jornal de sua Cachoeiro de Itapemirim.

Observador atento e fino que era, Rubem tinha, volta e meia, coração e mente capturados por imagens estampadas na imprensa. Aquelas fotos, por exemplo, que ilustraram uma reportagem de José Leal para a revista O Cruzeiro no início dos anos 1950, na Ilha das Flores, baía de Guanabara – à época, escala compulsória para os imigrantes que aportavam no Rio de Janeiro. Se a realidade de nossa política de imigração o desgostou, as fotos (de Flavio Damm e Badaró Braga, cujos nomes não chegou a citar) encantaram o cronista.

Nem todos seus leitores sabem que Rubem cultivava também a arte fotográfica, praticada sem pretensão ou veleidades nos desvãos de sua atividade de cronista e jornalista. Dessa discreta paixão de amador resultou uma série de autorretratos em preto-e-branco – um deles, por sinal, aproveitado, e não por acaso, na capa da coletânea póstuma de crônicas que o organizador Augusto Massi batizou como Retratos parisienses. E, já que viemos dar no terreno das imagens, acrescente-se mais um talento suplementar do Sabiá da Crônica, o de despretensioso desenhista – assunto de que trata seu confrade Joaquim Ferreira dos Santos em “O desenhista Rubem Braga”, disponível neste Portal na seção “Artes da crônica”.

Em “Um cartão de Paris”, que dá título a outra seleta póstuma de escritos seus, organizada por Domínio Proença Filho, também se fala de fotografia – não mais que uma, trazida de longe pelo correio, porém suficiente para abastecer de felicidade um dia em que até então sem nada de especial iluminara a rotina do cronista.

Também da França veio a lembrança que um dia de chuva devolveu a Antônio Maria no Brasil: a visita que fizera, anos antes, em companhia do pintor Cícero Dias, para conhecer a casa onde viveu o pintor Van Gogh, na cidadezinha de Auvers-sur-l’Oise. “Chovia igual a hoje”, rememora ele em seu diário, a cinco dias de morrer subitamente – e desfia flashes da memória: “O domingo cinzento. A praça. As mulheres passando para a missa.” A caminho do cemitério onde, lado a lado, jazem os irmãos Van Gogh, Théo e Vincent, passaram os dois brasileiros por uma velha igreja, e ali foram fotografados, “sorrindo para a nossa objetiva”. Pouco depois, já na casa onde morou o grande artista, a emoção do Maria vai se evaporar por força de um desastre linguístico. Na compra de souvenirs, seu francês mambembe provocou na vendedora uma crise de riso – e não era para menos: ao pedir fotos coloridas, em vez de “en couleurs” ele disse “en colère”.

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Talvez mais ainda do que o Braga, Otto Lara Resende também se ligava em fotografias no jornal ou revista, não tivesse sido mais jornalista do que qualquer outro companheiro de crônica. Nenhum escreveu mais do que ele a partir de imagens fotográficas.

Em 1991, quando o papa João Paulo II fazia sua segunda visita ao Brasil, Otto viu no Globo uma foto que flagrou o pontífice num prosaico bocejo, durante missa campal em Cuiabá. Ao escancarar a intimidade de Sua Santidade, a câmera implacável do fotógrafo Sérgio Marques levou Otto a comparar aquele senhor “acabrunhado” ao homem exuberante que aqui estivera onze anos antes. Mas gostou do indiscreto registro de um bocejo do papa – e justificou: “Sem deixar de ser fiel e respeitosa, a foto me pareceu comovente”.

Outra imagem, numa velha revista, lhe chamou a atenção: uma foto tão “exausta” que “mal consegue reter o perfil dos semblantes esbatidos”. Segue observando o bando de marmanjos: “Nas fatiotas masculinas vê-se ainda um vinco de certo aprumo. Naquele instantâneo inaugural, estão “todos felizes, premiados”, nenhum deles mais destacado e “fulguroso” que Fernando Collor de Mello, chefe de um governo que então principiava. Otto Lara Resende morrerá em 28 de dezembro daquele ano de 1992 – um dia antes de Fernando Collor, acossado por denúncias de corrupção, deixar a presidência da República. Mas seis meses antes parecia já saber o que esperava o “fulguroso” comandante.

Mais cedo ainda, em janeiro do ano anterior, Otto viajou no tempo através de sucessivos retratos de outros poderosos da política. Todo mundo encasacado, de chapéu de feltro, à europeia. Calça, colete e paletó. O cronista observou como no passar do tempo “a modernidade se impôs”, recolhendo “fraques e casacas, redingotes e polainas”, numa trajetória, quase se poderia dizer um strip-tease cívico, que vai da casaca à sunga. O primeiro presidente sem chapéu terá sido JK, que nem por isso dispensou “enxoval completo” na inauguração de Brasília. Jânio, seu sucessor, envergou e receitou o seu “pijânio”, no dizer do povo, vestimenta inspirada no uniforme de trabalho dos funcionários indianos. Por fim, ali estava Collor passeando de calção por 1992 – e nem assim sendo original, pois antes dele o general Figueiredo malhara para as câmeras assim trajado.

Houve outra manhã em que o cronista, ainda em jejum, foi fisgado por uma foto de jornal mostrando uma criança em flagrante sofrimento. “Biafra ou Bangladesh?, angustia-se Otto, e eis que se dá conta da insuportável verdade: parece um flagelado de nação paupérrima, “mas é coisa nossa”. Quatro meses de idade, com suspeita de cólera, num hospital da Paraíba, aquela “coisinha de olhos fechados” podia ser de qualquer canto do país: “Seu nome é legião. Seu sobrenome? Brasil”. Dureza saber que, três décadas depois, segue sem resposta a pergunta do cronista: “Quando é que a gente vai tomar vergonha na cara?”