Quando encerrar a sua visita e sair da mira dos fotógrafos brasileiros, o papa deixará aqui uma numerosa coleção de retratos. Alguns, excelentes. Muitos, curiosos. Desde já um flagrante me chama a atenção. Está na telefoto de Sérgio Marques, publicada pelo O Globo. Foi feita durante a missa campal de Cuiabá, quando a temperatura subiu a 43 graus. A mão direita no olho direito, o olho esquerdo fechado, o Papa foi surpreendido em pleno bocejo.

Com os recursos técnicos de hoje, uma câmera consegue ser muito indiscreta, mesmo à distância. Por mais atento que esteja, o retratado pode ser colhido em atitudes embaraçosas. Pode-se até discutir se é legítimo, do ponto de vista ético, fotografar uma figura pública e imobilizá-la num documento grotesco, ou caricatural. Em princípio, entendo que a foto deve reproduzir o que vê o olho humano, portanto sem deformação aberrante na linha do campo visual.

Gostei do flagrante do papa bocejando. Sem deixar de ser fiel e respeitosa, a foto me pareceu comovente. Mostra o papa cansado, por certo insone, debaixo de um calor tórrido. Humaníssimo cansaço de que nem João Paulo 2º escapa, ainda que tente controlá-lo e até o vença. Um bocejo é um berro silencioso, escreveu G. K. Chesterton, por sinal um escritor católico: “A yawn is a silent shout”. Depois de tantas advertências em suas homilias, o bocejo neste caso não pode ser entendido como um grito.

Aos 71 anos de idade, com 13 de cátedra, o papa esteve no Brasil há 11 anos, em 1980. Envelheceu de lá para cá, como é natural. Ao contrário de Paulo 6º, que viveu e morreu angustiado, João Paulo tem hoje motivos de júbilo. Bastaria, por exemplo, a derrocada do comunismo na Polônia, sua pátria, e derrocada que ele ajudou. O fato, porém, é que, comparando o visitante de hoje com o de 1980, é impossível não ver no de agora um homem acabrunhado. Aqui há, sim, razão para o bocejo.

Bem informado como é, o papa está a par da atual situação brasileira. Do ponto de vista religioso, é tocante a fé do povo. Fé do carvoeiro, para usar a expressão pascaliana. Resignada e fervorosa. Já do ponto de vista moral, e até da moral pública, o país está uma tristeza. No mais, no que respeita por exemplo aos índices sociais, só houve retrocesso. O Brasil se vê hoje ameaçado no patrimônio da sua esperança. O papa deixa para trás desta vez um horizonte sombrio. Isto, sim, é que é de gritar. E também de chorar. 

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As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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