Era uma dessas revistas velhas que dão a nota neutra do ambiente. A penumbra nada tem a ver com o tempo do relógio. O ar parado, nem mosca se anima a voar. Se há mais duas ou três presenças, todas, asas fechadas, assumem esse jeito de ausência. Cada qual apaga a chispa dos olhos. Este pensa na bezerra que morreu. Aquele, felizardo, cochila, sem pressa. Sabe que a vida é espera. Nesse limbo de modorra foi que entrevi a fotografia.
Na página manuseada, já não desperta curiosidade ou interesse. A princípio nem puxei o retrato para um plano de nitidez. Sem identificá-lo, apenas recolhi a nebulosa estampa por um segundo e voltei ao tédio reinante. Por fora e por dentro, o mesmo vácuo. Sensibilidade disponível, fechei os olhos. Só então a foto desatou a associação de ideias. De ideias, não. De imagens. Imprecisas, preguiçosas, foram vindo de cambulho.
Retrato de casamento, por exemplo. Os noivos empertigados. Na solenidade das fisionomias, as caladas juras de amor. Na atitude e nos trajes, o constrangimento do instantâneo. Nenhuma aparente afinidade com a foto de formatura. Desta se desprende um antigo silêncio. Parte segredo, parte bocejo. Todos muito sérios encaram o passarinho da máquina do fotógrafo. O futuro brinca de esconder por trás de várias incógnitas. A vida é festa, não é combate.
Ao ar livre, mais luz, agora é o time de futebol. Uns de pé, outros sentados. A solidária camisa, o espírito de equipe. Uma aura otimista sela a garantia de aliança e reciprocidade. No centro, a bola. Inocente, contém dribles e malvadezas. A vida é bela quando é só promessa. Tudo a favor, até a grama transpira certeza. A jovial aventura batida por essa luz de alvorada. Vai girar, propícia, a roda da fortuna.
Volto à foto na revista. Exausta, mal consegue reter o perfil dos semblantes esbatidos. Nas fatiotas masculinas vê-se ainda um vinco de certo aprumo. Todos felizes, premiados. No meio, fulguroso, o líder. A recente vitória garantiu-lhe o centro dos acontecimentos. Por enquanto imóvel, já já o flagrante histórico vai se movimentar. Começam juntos, juntos vão até o fim. Triunfante, de costas para o passado, essa pose oficial inaugura, remoto, o que veio a ser o governo Collor.