Há um “golpe” de feira muito usado no Rio. A senhora, que faz compras, quer meio quilo de tomates mas pergunta se pode escolhê-los. O vendedor é amável:

— Pode escolher à vontade, madame.

Ela pega os tomates mais bonitos e entrega ao vendedor. Ele se dirige ao fundo da barraca para pesá-los dentro de um saquinho. Bem, quando a senhora chega em casa, verifica que os tomates são outros, miúdos e estragados.

O vendedor fez mágica: junto a balança, ele já tem preparados vários saquinhos, de suas diversas mercadorias. A troca é fácil, e ele a faz com o mais honesto dos sorrisos.

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Aprendi outro “golpe” ontem. Gosto de cerejas, e estava comprando-as em uma mercearia ao furto de 50 cruzeiros o quilo. Passando ontem por um dos caminhões da praça da República, vi o mesmo tipo dessas cerejas expostas a 30 cruzeiros o quilo. Comprei 250 gramas para ir mastigando enquanto escrevo esta seção. Engano. As cerejas, quase todas, não prestavam, embora fossem belas e grandes quando as vi no caminhão. Percebi então que o homem escolhia as boas e as colocava cuidadosamente em uma caixa bem à vista. Em outra caixa maior, à altura de seu cinto, ficam as cerejas estragadas a ser vendidas ao público.

Devo desfazer o engano das pessoas que viram em um caso contado aqui outro dia sobre Augusto Frederico Schmidt alusões desairosas à sua pessoa. Não quis dar a entender que o poeta Schmidt fosse um negociante lambação, burro e analfabeto. Muito antes pelo contrário: Otto Lara Resende, que fazia essas suposições sobre a pessoa que ia à sua frente em um carro, verificou com surpresa e bom humor que se tratava exatamente de um homem oposto do que ele pensava, de um homem culto e de sensibilidade.

Ainda: o carro do poeta é uma Chrysler e não uma Cadillac.

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Jayme Ovalle foi visitar a mulher de um amigo, que dera à luz na Maternidade Santa Lúcia. O porteiro informou que a maternidade era na frente; o fundo do prédio era para os doentes.

Com efeito, enquanto ele seguia pelo corredor, podia-se ver através das portas abertas, jovens mães a tomar o café da manhã. Mas de repente Ovalle não se conteve e parou indiscretamente alguns segundos diante de um quarto. Lá dentro, visão absurda, em cima de um leito, estava uma velha enrugada, de cabelos brancos, molhando o seu pãozinho no café com leite.

E Ovalle para a pessoa que o acompanhava:

— Essa velhinha aí deu à luz um neto.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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