Uma família do Rio… Um dia, uns parentes de Saco do Alferes vieram conhecer a capital. As pessoas da família foram mobilizadas para mostrar a cidade. O pessoal de Saco do Alferes, depois de uns dias, para lá voltou.

Meses depois, a família está reunida para o jantar. Fala-se em alguém. A mocinha da casa faz uma cara de enjoo.

— Ah, não, Fulano não, Fulano é tão saco!

— Ora, minha filha — replica a mãe — Fulano até que é chique.

Pouco a pouco então, como acontece nas famílias, um rico significado vai se agrupando em torno daquelas duas palavras:

Saco e chique. Nasce uma nova gnomonia e um modo de encarar o mundo. O que é a filosofia senão um jogo arbitrário em relação ao sentido de algumas palavras?

Antes de tudo, saco não é absolutamente o inculto, o primitivo; e chique nada tem a ver com o luxo e as boas maneiras. Saco não é necessariamente o ruim; chique não é necessariamente o bom.

Um dos maiores chatos deste Rio de Janeiro, rapaz que dispersa os aglomerados humanos a que chega, não é saco, é chique: há nele uma agressividade, uma autenticidade, uma impossibilidade de ser o contrário, que o fazem chique. Já o maior saco, por sua vez, é justamente a pessoa que faz tudo para ser chique. O chique é sempre um acontecimento na personalidade.

Cheguemos aos exemplos: o Brasil, de modo geral, é chique; a Argentina é saco. Olegário Mariano é saco; Manuel Bandeira é chique. Bolero é saco; samba é chique. O Vogue é saco; os botequins do Rio são chiques. Copacabana é saco; Botafogo é chique. Os filmes da Metro são saquíssimos; as músicas de Sinhô são chiquíssimas. O ensaio inglês é chique; a crítica inglesa é saca. A arquitetura moderna, em geral, é saca; a colonial é chique. A Europa já foi muito chique; hoje está ficando bastante saca. Rita Hayworth e Ali Khan são saquíssimos; Ingrid Bergman e Rosselini são chiques. Picasso é chique; Salvador Dalí é saco. Uísque é chique; Martini doce é saco. Tommy Dorsey é saco; Armstrong é chique. Ademir é chique; Zizinho é saco. Aracy de Almeida é chique; Carmen Miranda é saco. O Duque de Windsor é saco; a duquesa de Windsor é chique. Cigarro americano é saco; cigarro brasileiro é chique. O general Dutra é chiquíssimo. Grande escritor saco foi Marcel Proust. Grande compositor saco foi Debussy. Outra grande saca é Marie Laurencin. Tolstoi, Bach e Goya são chiquíssimos. Verlaine é chique; Rimbaud é saco. A 2ª classe dos transatlânticos é chique; a 1ª classe é saca. Winston Churchill saquíssimo; Atlee é chique.

E como os acima são suficientes, queremos apenas esclarecer que, quanto às pessoas, o saco não se confunde com o Pará (da gnomonia de Jaime Ovalle), assim como o chique não se confunde com o Dantas. Há Dantas que são sacos e Parás que são chiques.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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