Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.186-192. Publicada, originalmente, em O Paiz, coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 15/11/1910.
Não, enquanto a nossa Biblioteca Nacional se encolhia envergonhada e triste naquele sombrio casarão da rua do Passeio, nunca me apeteceu ir ver as suas coleções de gravuras, de mapas, de livros iluminados, de numismática, etc., e quando uma vez, urgida pela necessidade de uma indagação, tive de ir consultar uma das suas obras, fi-lo sem outra curiosidade senão a que expressa e obrigatoriamente me levava ali. O ambiente não convidava a demoras nem sugeria desejos de futuras visitas.
Hoje, que diferença!
Venho exatamente de percorrer todo o edifício da nova Biblioteca, desde as oficinas tipográficas e de encadernação e da sala dos motores elétricos, no porão, até aos seus mais altos terraços, aos seus salões e galerias nobres, e a impressão recebida a cada novo aspecto dos vários compartimentos superiores era idêntica à de quem, saindo de um lugar acanhado e de atmosfera pesada, se visse de repente em plena claridade, bafejada pelo ar livre do mar; em uma atmosfera sã, que desperta a vontade para as energias e para o gosto do estudo.
O edifício, cuja fachada é, a meu ver, uma das mais belas, mais grandiosas e mais serenas dentre todas as do Rio de Janeiro moderno, correspondia internamente ao que prometia no exterior: luxo e conforto.
Isto é, para mim que já não galgo degraus com a lepidez e a pressa com que o fazia aos 20 anos, há nesse palácio uma particularidade extremamente desconfortável para o público: a sua larga escadaria exterior. Porque nós não podemos imaginar que os frequentadores da Biblioteca sejam só os estudantes ainda não acometidos de canseiras físicas; parece-me lícito supormos que, neste clima em que se envelhece tão cedo, muita gente idosa (que é quase sempre a mais amiga de leituras) e muita gente reumática lá lhe vá pedir uma hora de distração ou de elucidação. As escadas para os míopes, para os gotosos ou para os que tenham de recorrer a muletas, são sempre um motivo de susto, principalmente as largas escadarias sem corrimão, expostas à claridade, às vezes estonteadora, do sol pleno.
Não há dúvida que o edifício da Biblioteca lucra em beleza arquitetônica com esses três lanços de escadas, que lhe dão imponência; mas nada impedia que, deixando essa entrada aos que a preferissem, o ilustre arquiteto de tão provada competência, como é o sr. general Souza Aguiar, a quem saúdo efusivamente pela beleza desta sua obra, tivesse pensado na desventurada sorte dos hemiplégicos e dos cardíacos, que por sê-lo não deixam de amar e de procurar a convivência dos livros, e lhes tivesse fornecido, por uma entrada lateral, com ascensor, acesso fácil até o mesmo vestíbulo grandioso onde agora se sentam o porteiro e o empregado das informações.
À parte esta impressão de pessoa comodista, tudo mais me encantou, positivamente encantou, nesse edifício que é o melhor orgulho da cidade porque, além de ser belo, atesta a quem o visite a nossa cultura e o nosso interesse espiritual. Não creio que haja no mundo muitas bibliotecas em que o acordo das coisas materiais com as intelectuais seja tão perfeito como na nossa. O leitor encontra com o livro uma atmosfera preparada para entendê-lo; tudo é nítido, prático, fácil, cômodo e bem combinado. Vê-se que a mão que a dirige é forte e competente; mas disciplinada por uma vontade robusta e um espírito metódico. Já no modo por que está distribuído o mobiliário das diversas seções, denota a quem observe as coisas com um pouquinho de atenção, que o sr. dr. Cícero Peregrino sabe ser dono de casa. E como esse mobiliário de ferro, invencível à fúria das labaredas, e à voracidade dos bichos, acorda em quem o vê o desejo de reformar os trastes que em casa destina à sua papelada! Que móveis simples, práticos, sólidos, bem pensados e bem executados!
Na grande sala de leitura, magnificamente decorada por Amoedo, Brocos e Visconti, eu senti uma verdadeira surpresa, de tal modo a tinha imaginado diferente do que ela realmente é. Supunha uma sala em que só houvesse conforto; encontro um salão luxuosíssimo e brilhante. Está claro que eu não quero aqui descrever uma casa que toda a gente pode e deve ir ver com os seus próprios olhos, mas afirmar unicamente a excelente impressão que ela me causou, e felicitar por isso a população que a vai gozar. Uma das coisas que me impressionaram agradavelmente foi ver que para cada leitor há uma carteira, evitando-se assim a mesa comum e dando a cada leitor maior comodidade e mais independência. Estavam algumas carteiras ocupadas. Entre os leitores havia uma senhora tomando notas. Esta circunstância, que talvez pareça destituída de interesse, encheu de júbilo o meu coração. Uma senhora – e de mais a mais uma senhora chic, dessas que a gente pensa, quando as encontra na rua, que não pensam em nada – a ler na biblioteca pública e a tomar notas? Mas é o progresso! Mas é a mais alta e mais inequívoca prova de adiantamento intelectual de uma cidade da população da nossa! E mais, muito mais gente, iria a essa casa fazer leituras que não pode fazer na sua, se a Biblioteca estivesse aberta até às nove ou dez horas da noite; mas fecha-se às quatro! Eu não sei nem me importa saber o regime por que se mantêm as outras bibliotecas públicas do mundo. Cada terra tem o seu uso. Na nossa há muitas classes que só à noite podem ter vagas para leituras e para estudo. Os empregados do comércio, rapazes sem lar, sem conforto que lhes proporcione à noite uma hora para ler em paz, só na Biblioteca poderiam dar ao seu espírito o alimento que ele lhes suplica e cultivá-lo sem sacrifício. O sr. ministro do Interior tem de resolver esse problema quanto antes; já que temos uma biblioteca pública, é forçoso que ela sirva ao público, sem exceção.
E como deverá ser consolador e belo ver-se do alto da grande galeria circundada pelo gradeamento de bronze dourado, entre os painéis dos nossos artistas mais considerados, e à luz difundida de tantíssimas lâmpadas, todo aquele recinto de silêncio e de paz, repleto de gente calada, inclinada para os livros, os grandes amigos de sempre, os amigos que nos consolam e não nos traem jamais.
E para sentir bem o livro é preciso debruçar-nos do último andar da sala da Biblioteca, a que chamam armazém dos livros, e olhar para baixo. É ali que palpita a alma que anima toda a casa, verdadeiro templo consagrado ao pensamento humano, glória da criação.
Eleva-se desse recinto qualquer coisa que nos sensibiliza; ele é mudo e afigura-se-nos cheio de vozes; de todos aqueles armários verde-negros, alinhados como túmulos, se irradia uma expressão de doçura e de consolação. São os velhos irmãos de séculos passados, são os de hoje, são os de todos os tempos que nos envolvem com a sua filosofia, a sua sabedoria, ou a sua ilusão... Não se entra nem se sai da Biblioteca como de uma casa qualquer; entra-se só, sai-se acompanhado por uma sombra do passado ou pelo fulgor de uma ideia nova.
Antes de voltarmos para a rua, temos ainda uma reverência a fazer a alguém que olha de face, na sua serenidade de mármore, para a larga porta da entrada principal do vestíbulo. Não será preciso muita perspicácia para adivinhar que esse alguém seja d. João VI, o fundador da primitiva Biblioteca. E, embora lhe seja indiferente a minha cortesia, faço-a com toda a veneração, sem me esquecer do sr. dr. J. J. Seabra, que ao legado desse que para o nosso Brasil foi um grande rei, mandou, quando ministro do Interior e da Justiça do benemérito governo Rodrigues Alves, dar o abrigo condigno do mais grandioso monumento arquitetônico da capital, e a quem por isso todos devemos gratidão, que a mim nada me custa render-lhe e que lhe rendo com jubilosa sinceridade.
A valiosíssima fundação de d. João VI, hoje consideravelmente aumentada e que forma um patrimônio inestimável da Nação, está definitivamente livre dos perigos iminentes que por todos os lados a cercavam no velho edifício da rua do Passeio.
A nova instalação é um cofre amplo e sólido para a riqueza ali acumulada e que ninguém cá fora pode avaliar. Não são só os intelectuais e os estudiosos que devem gratidão ao ministro previdente que mandou fazer esse cofre; é o país todo, que nem sequer sabe o que ali tem, mas que o há de ir pouco a pouco compreendendo, à força de lho dizerem, como já outros lho disseram, e eu agora repito com verdadeiro orgulho.