A filha dos trópicos
Carioca mais por nascimento do que por identidade, Júlia Lopes de Almeida usufruiu do reconhecimento literário ainda em vida e, com seu suado e longevo trabalho de escrita, pôde criar cinco filhos, publicar mais de 40 livros, comprar uma casa e plantar árvores.
Nascida em meados do século XIX, em uma família na qual o estudo não apenas era incentivado, como se tratava do ofício de seu pai, professor de liceu para mulheres, a escritora fez valer a liberdade inicial que recebera, tão rara para os padrões da época, e a cifrou por sua obra.
Conforme ela mesma aponta, seus livros vieram antes do casamento com o português Francisco Filinto de Almeida e continuaram depois do nascimento dos filhos. A comunhão entre o casal se expressava nas pequenas e grandes coisas, como o jogo de palavras A. Julinto, pseudônimo que escolheram para assinar o livro escrito a quatro mãos, A casa verde (1899), preferido declarado de Júlia.
Embora tivesse obra à altura, a autora foi recusada pela Academia Brasileira de Letras, que não admitia mulheres em seu corpo institucional; Filinto foi quem ocupou a cadeira nº 3 — ainda que sua nacionalidade lusitana ferisse o artigo 2 dos estatutos da ABL que, à época, restringia os membros a brasileiros natos. Por conta dessa manobra, Filinto ganharia a alcunha de “acadêmico consorte”, mas a troça não o impediu de admirar e admitir a qualidade do trabalho da esposa: “não era eu quem deveria estar na Academia, era ela”.
Se, por um lado, Júlia seria recusada pela instituição, que também ajudou a erguer, por outro, seria legitimada publicamente pelos seus pares. “Há muita gente que [a] considera o[a] primeiro[a] romancista brasileiro[a]”, comenta João do Rio, que reconhece como sua escrita sobre a cidade foi impactada pela descrição que Júlia fez da região da Gamboa em A viúva Simões (1897), com “torres de igreja, a cúpula da Candelária, tetos envidraçados dos frontões, altas chaminés das fábricas, palácios, casas miseráveis, pedaços de mar obstruídos de mastros”.
Nessa virada de século, o nome da escritora já equiparava-se aos de Aluísio Azevedo e Machado de Assis. Após a morte destes, na opinião de José Veríssimo, “o romance no Brasil conta apenas dois autores de obra considerável e de nomeada: D. Júlia Lopes de Almeida e o Sr. Coelho Neto; eu, como romancista, prefiro de muito D. Júlia Lopes”.
O curioso é que Júlia lia pouco porque o trabalho doméstico lhe ocupava muito: “era capaz de passar a vida lendo, mas uma dona de casa não pode perder tanto tempo. (...) Quem entretanto cuidaria dos filhos, dos arranjos da casa?”, pondera ela. Mas foi assim, espremida entre a criação dos seus personagens e da prole de três dos cinco filhos nascidos, que dedicou cinco décadas à literatura e aos mais diversos gêneros.
De uma forma geral, as obras artísticas produzidas no Brasil Império e no pós-abolição precisam ser revistas a partir de uma leitura crítica e a obra de Júlia não foge à regra. Do vasto universo de sua produção literária tanto em livro quanto em jornal, estão duas cartas com orientações racistas em relação à “criadagem” publicadas em O livro das noivas (1896); ao mesmo tempo, é numa destas cartas que ela argumenta que a escravidão opera sob “a mais iníqua e bárbara das leis”.
Se houve ambiguidade neste seu posicionamento, ela logo se desfaz por meio da leitura continuada de sua obra. Ao lado da maranhense Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula (1859), Júlia Lopes de Almeida é umas das poucas mulheres nas letras que registra, com coragem e crueza, as dinâmicas de uma sociedade escravocrata e uma burguesia decadente, de que é exemplo A família Medeiros (1892). Este último, que precisou de uma segunda tiragem em menos de três meses, impactou a crítica, incomodada com a representação dos personagens e a suposta “intenção moralizante” do romance: “os escravocratas, todos criminosos, perversos e desumanos, contrastando com os abolicionistas, todos nobres, generosos e esclarecidos”, de acordo com Wilson Martins, não muito contente.
Incluída na toada da justiça social está igualmente sua perspectiva sobre a pobreza e a miséria em que viviam mães e mulheres viúvas, personagens recorrentes em suas narrativas. A autora, aliás, anteciparia temas mais tarde trabalhados por Carolina Maria de Jesus e Laudelina de Campos Melo ao fazer “o retrato de tantas vidas invisibilizadas, de tantas histórias que não viraram manchete”, conforme afirma Preta Rara no prefácio de Memórias de Martha (1899). É esta sua prosa que funciona, hoje, como um retrovisor histórico e social no qual estão refletidos a economia, as rígidas organizações familiares, os espaços circunscritos a ex-escravizados e mulheres daquele período.
“A arte, para mim, é a simplicidade. Ser simples e sóbrio é um ideal”, afirma Júlia. Tais simplicidade e sobriedade cruzaram os séculos e chegaram até o Portal da Crônica Brasileira. Na tabela de equivalências dos conceitos contemporâneos, poder-se-ia dizer que Júlia Lopes de Almeida trata de urbanismo, ações de sustentabilidade, melhoria do transporte urbano e até acessibilidade para quem vai à Biblioteca Nacional, mas não consegue usufruir daquele espaço por conta das escadas: “‘gente idosa’, ‘reumática’ e até ‘míopes’ ‘gotosos’ que tenham de recorrer a muletas as largas escadarias da Biblioteca Nacional”.
Sob o véu da modéstia e da ironia, nestas crônicas estão uma perspectiva feminista cifrada em textos de jornais, que, embora pareçam simples, permitem perceber a genialidade da autora ao destacar as mulheres de seu tempo, chamando-as pelo nome, como “Edwiges de Sá Pereira” e “Carmen Dolores”, ou apenas descrevendo aquela cujo nome não sabe, mas que ficou gravada em sua retina: uma senhora chique “dessas que a gente pensa, quando as encontra na rua, que não pensam em nada” tomando notas e lendo na biblioteca pública. “É o progresso!”
Elizama Almeida

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*Cronologia elaborada por Katya de Moraes.