Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.215-221. Publicada originalmente em O Paiz, na coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 17/01/1911.
Chegar-se ao Rio de Janeiro vindo-se de Petrópolis, em uma tarde abrasadora como a da última sexta-feira, é como que cair do paraíso no inferno.
Nunca as ruas da cidade nova me pareceram mais antipáticas. As próprias palmeiras do mangue tinham um aspecto de sujidade e de tristeza; mas de maior abandono ainda era a aparência da população que transitava pelas calçadas. Caía a noite. Os homens voltavam dos seus afazeres. De cada bonde repleto por que eu passava, via voltarem-se para fora, à busca de ar, rostos congestionados, luzidios, cansadíssimos, dos passageiros comprimidos nos bancos e abafados nas suas casimiras escuras. Mesmo de relance, mesmo sem os ouvir balbuciar uma só queixa, compreendia-se perfeitamente o horror da sua situação. Estavam na fogueira desde manhã, já não podiam tolerar os colarinhos, o chapéu coco, o casaco de lã, a atmosfera de forno da cidade baixa.
Cada bonde que passava, assim repleto, acordava a ideia de um cárcere ambulante, cujo estrado, gradeado, tivesse um fundo de brasas. Iam na grelha aqueles pobres senhores e aquelas damas de chapelão e leques incansáveis, nas mãos, aflitas.
Inda assim, essas eram as mais felizes, porque o bonde sempre desloca um pouco de ar que refrigera quem nele viaja. Mas e os carroceiros com quem volta e meia topávamos naquela movimentada rua Senador Euzébio, caminho da estação da Leopoldina?
O tipo do carroceiro no Rio de Janeiro sempre me infundiu um grande pavor. Ver um homem a correr bem na frente de uma roda brutal, muito maior do que ele, ao lado de animais que de um momento para outro podem inesperadamente acelerar a marcha em que caminham, é ter a impressão de ir assistir naquela hora mesmo a um desastre terrífico e que alterará o meu sossego por muitos dias consecutivos. Nunca em cidade nenhuma vi jamais coisa tão abominável! Além da iminência do perigo, que a vista de tais monstruosidades sugere, ela é profundamente antiestética.
Não se riam: esta observação tem um alcance mais elevado do que parece. Os costumes das cidades, como os hábitos dos indivíduos, devem guardar uma certa harmonia entre si. O sujeito de casaca e flor ao peito, que se apresentasse em um salão em tamancos, pareceria a todos doido ou ridículo; estou bem certa de que os próprios criados não o deixariam passar do vestíbulo, aconselhando-o rudemente a ir calçar-se decentemente antes de se fazer anunciar aos donos do salão. Ora, carroças e carroceiros afiguram-se-me, nestas ruas asfaltadas e arborizadas do nosso Rio moderno, como tamancos grossíssimos em soalhos encerados.
É tempo de que os poderes competentes tratem disso.
Os automóveis aí estão prontos a substituir esses tremendos veículos de transporte. E exatamente contaram-me há dias que a Alfândega que nos infelicita grava com exagerados direitos os automóveis de carga, que um ou outro negociante trate de mandar vir da Europa... Deve haver por aí um erro qualquer: ou de quem fez a lei, se ela é exata, ou de quem me informou a seu respeito, se o não é.
Mas não são só os carroceiros, sejamos justos, que dão à cidade uma nota de desafinação irritante.
Já uma vez escrevi neste mesmo lugar a respeito do modo desrespeitoso e indecente por que certas classes cariocas se apresentam na rua.
Valeu-me isso várias cartas, umas anônimas, pejadas de ameaças, outras repletas de considerações; e entre muitas só uma de acordo com o meu modo de ver e de sentir. Paciência. Nada disso fez com que eu mudasse de opinião, e quando saio do Rio, mesmo que por poucas horas, como na última sexta-feira, quando a ele volto mais se acentua em mim essa impressão de abandono, de verdadeiro desleixo de parte da sua população.
Nessa tarde de fogo as calçadas formigavam de gente. Homens de chinelos sem meias, calças sem suspensórios a escorregarem-lhes pelos quadris, peitos apenas cobertos por camisas de meia ou de chita, acotovelavam-se com mulheres de camisolão, negras de saias sujas, de mistura com mocinhas em cabelo e cavalheiros graves, de gravata preta.
O aspecto de tal confusão não é pitoresco – é indecente e infunde uma certa melancolia. Como remediar tal desídia?
Por mais indisciplinado que seja um povo, ele é obrigado a compreender que a liberdade tem limites e que todo o indivíduo tem de ter contemplações para a sociedade em que vive.
Nas cartas que recebi quando tratei deste assunto, sem em nada cooperar infelizmente para o melhorar, perguntavam-me algumas pessoas como poderia eu querer que andassem todos bem vestidos na rua, sendo a vida no Rio tão cara e a sua população tão pobre?
Está claro que eu não insinuo que andem todos bem vestidos! Comparo unicamente a população da minha cidade com a de outras capitais em que a vida não tem mais nem melhores recursos, e pergunto: por que não poderá ela manter a mesma aparência de limpeza, de decência e dignidade nas suas classes trabalhadoras? Se a vida no Rio de Janeiro é tão cara que não permita aos que mais suam e mais se esfalfam a consolação ao menos de não aparecerem em público como mendigos, seminus, fujamos todos do Rio e vamos para os pobres países da Europa, onde o trabalho sempre dará para a aquisição de alguns trapos limpos. Trabalhar sem regalias não é tolerável. E consumir todo o esforço físico em uma labutação pesada só para não se morrer de fome não pode nem deve bastar a ninguém. Parece que é isso o que se dá aqui atualmente, e como tal situação não é comportável, cuidemos de atinar com os remédios que a modifiquem.
Quem descobrirá o unguento milagroso para a cura de semelhante chaga? Que o digam os sábios da escritura.
Estas impressões não são nascidas de má vontade nem de antipatias para com as classes pobres da cidade, como da outra vez me acusaram. Ao contrário, o meu desejo seria ver em toda a gente da nossa cidade o ar de asseio e de bem-estar que torna as populações atraentes e respeitáveis. De mais a mais ninguém me convencerá de que os meios de que dispõem, no Rio, carregadores, carroceiros, etc., não deem para a compra de blusas, como as que usam os seus colegas em outras cidades, em que, entretanto, têm menores lucros. Aqui mesmo há um exemplo a apresentar nesse sentido: o dos carregadores da Central, cujo uniforme é bem conhecido.
Tudo depende do hábito e da educação. Não vemos caixeirinhos, que muitas vezes não ganham mais de 50 mil-réis mensais, andarem calçados e limpos? Mas deixem-me retomar o meu assunto.
O contraste do Rio, afogueado por uma temperatura de 32 graus, com o da fresca e suave Petrópolis, vestida de hortênsias azuis e toda perfumada pelas suas lindas magnólias em flor, deu-me a esse dia de calor a impressão inesquecível de um quadro vivo, apenas interrompido por uma linha verde de mataria, em que numa parte a vida humana fosse criada para as doçuras do amor e do êxtase, e na outra, para as agruras do trabalho e do esforço incompensado.
Uma antiga moradora de Paula Matos escreve-me lamentando-se de que seja tão má a subida para aquele morro, pelo lado da rua Frei Caneca. Deve ser alguma senhora idosa, cuja saúde não comporte caminhadas por ladeiras mal calçadas. Pede-me essa doce alma que intervenha, para que a Prefeitura corrija os estragos feitos pelo tempo e as enxurradas, naquele recanto humilde da cidade. Aqui estou eu cumprindo o seu desejo. Agora há só uma dúvida, minha senhora: é que a Prefeitura me atenda.
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Apesar de ainda não ter visitado a exposição de Calixto Cordeiro, prazer que me reservo para hoje, quero neste desalinhavado fim de crônica felicitá-lo pelo sucesso que, segundo me dizem todos os que a têm visto, ele alcançou entre nós.