Salus populi suprema lex estoNada Nada de palavras: fatos.
Os da última semana foram tão eloquentes que encherão ainda de assombro muitos dias a seguir. É sempre assim. Quando a voz dos humildes se levanta é para fazer estremecer os poderosos. Natural; eles concentram em longos anos de sofrimento calado o azedume da injustiça que lhes fermenta na alma até explodir um dia em um desafogo inevitável e humano.
Quanto mais longa tenha sido a duração dessa tortura moral (aquela a que aludo, e que todo o mundo sabe qual é, vem de sucessivas gerações dolorosas), mais esse desabafo terá um dia de ser terrível de violência.
Era já tempo de se saber isso.
Era já tempo!
Entretanto, não se sabia.
Parece que não se sabia! E centenas de homens continuavam a ser tratados, nestes claros dias de razão e de justiça, como seres inconscientes, feras bravas que o domesticador afaga escondendo no gesto o ferro em brasa…
Foi uma lição amarga. Mas as lições amargas são quase sempre as de maior proveito. Talvez que ela seja útil ainda a alguém. Sei lá; a sociedade dos homens é tão cheia de imprevistos e de assombros! Este teve duas faces; uma da brutalidade com que o caso se revelou e o consequente terror que infundiu; outra a do domínio sobre si próprios, de que deram provas os marinheiros senhores da ação. Não nos esqueçamos de que, se eles tivessem querido, grande parte da cidade estaria a estas horas grandemente danificada ou reduzida a pó. Os oficiais de 1893 tiveram menos respeito pela população do Rio de Janeiro. Agradeçamo-lhes isso, ao menos! E não é pouco... Todavia, na refrega houve mortos. Estes vendavais não passam nunca sem abater alguém; mas relativamente os mortos foram poucos e de ambas as partes, o que equilibra a balança da justiça.
Mas não é para lamentar os mortos caídos no seu posto de honra e pelos quais toda a população gemeu que eu escrevo estas linhas. Não é tampouco para vincar ainda com a minha pena, impiedosamente, a verdade triste que deu causa a tão inesperado, a tão doloroso acontecimento.
A minha intenção é outra.
A minha intenção é louvar, em nome de toda a população pobre do Rio de Janeiro, população que não pode fugir de um minuto para o outro, para fora do alcance das balas ameaçadoras, porque está presa à terra do seu trabalho por mil amarras inquebráveis, a atitude serena e corajosa do sr. marechal Hermes da Fonseca assinando o decreto da anistia dos revoltados, em face da desesperadora contingência de só os poder castigar condenando ao extremo sacrifício a população da cidade. E para isso foi preciso coragem sim, porque não é necessário conhecer demasiadamente os homens para se saber quanto eles elevam acima de tudo o prestígio da sua força e da sua bravura.
A razão, o bom senso, ficam muitas vezes sepultados sob essa dura tampa de aparência e de veleidade. O problema que logo nos primeiros dias do seu governo o sr. presidente da república viu levantar-se diante de si tinha forçosamente, para ser resolvido, de sacrificar alguém ou alguma coisa: ou o prestígio do governo ou a população enorme da cidade.
Entre essas duas soluções, um vaidoso, um egoísta, escolheria a segunda. Salvaria assim os brios de uma classe oficial e contornaria o seu nome com os dísticos tão gratos ao espírito masculino de valoroso, de enérgico, de destemido.
Adivinho que o sr. marechal Hermes da Fonseca, como homem e como soldado, sujeito às contingências da vaidade humana, teria tido ímpetos de resolver a crise terrível que nos abalava por um modo bem diverso daquele de que usou!
Felizmente, a razão da sua consciência teve mais força do que o seu orgulho pessoal, e ele transigiu com o seu orgulho, hipotecando com isso, temporariamente ao menos, o brilho efêmero, o brilho político do seu governo.
O sacrifício que ele fez assim patrioticamente, honestamente, pela paz e pela harmonia da família brasileira, não deixará de ser compreendido. Felizmente, os governos não têm só alicerces na política; façam-se amados do povo e tê-los-ão ainda mais profundos no povo.
Nas horas de sofrimento comum o espírito da coletividade adquire uma lucidez nunca sentida nas de indiferença ou de prazer, e então, aquele que vier ao encontro da sua angústia com uma palavra de consolação ou uma de condenação, desde que esta última represente a verdade e a justiça, esse alguém será respeitado por ela profundamente, absolutamente. Quando falo de coletividade falo das classes anônimas, não das interessadas por este ou por aquele motivo, e de exceção. E foi a população anônima do Rio de Janeiro, sobretudo a gente pobre, humilde, sem recursos para fugas tumultuosas, que a mão abnegada e forte do sr. presidente da república amparou neste transe de estupefação e desespero. Bastaram as duas vítimas inocentes do morro do Castelo.
Já foram demais.
Não tenham medo do futuro. Quando uma causa é justa, ela não deixa ressaibos que envenenem horas do porvir. Desde que as coisas sejam todas como devem ser, elas se manterão por si com simplicidade e com nobreza.
Oficiais e marujos podem-se olhar de face sem rancor, como auxiliares mútuos, servidores leais da mesma bandeira, filhos da mesma terra de liberdade. Olhar-se-ão até, daqui por diante, com mais simpatia, porque não haverá entre eles esses dois fantasmas negregados: o desprezo e o terror, que haveriam forçosamente de afastar uns dos outros.
Os dias esclarecidos dos nossos tempos não permitem tais interposições. A era dos fantasmas e dos escravos acabou. Haverá ainda alguém que possa lamentar isso?!
Talvez... mas esse alguém não pode ser olhado com seriedade nem com respeito por nenhum de nós. A verdade agora demonstrada foi esta: o que as palavras em longos
anos de queixa humilde e de súplicas desesperadas não puderam fazer, fizeram-no os fatos, em poucos dias.
Os fatos são sempre mais eloquentes e mais persuasivos do que as palavras! Está tudo consumado. Agora é trabalhar com ânimo sereno, cumprindo cada um o seu dever, dignamente.
E sempre nisso, afinal, se consubstancia e se resume a felicidade humana.