Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.282-287. Publicada, originalmente, em O Paiz, coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 9/01/1912.

Há dias em que parece entrar-nos em casa um diabrete invisível para se divertir à nossa custa, escondendo-nos as chaves das gavetas que exatamente precisamos abrir; mudando a posição dos livros nas estantes quando deles mais carecemos para uma consulta urgente; sumindo-nos as cartas a que temos necessidade de responder; fazendo-nos, enfim, toda a espécie de travessuras pirracentas de que lançamos a responsabilidade para as costas das crianças ou dos criados, na presunçosa certeza de que todas as coisas têm explicação, e de que a maior parte das vezes nem os criados nem as crianças têm culpa.

Mas nem sempre esse misterioso mafarrico se limita a mudar um guarda-chuva, por exemplo, do cabide da saleta de entrada para o recanto do manequim, na sala de costura, só pelo deleite de azedar almas e fazer de lares pacíficos lares atribulados pelo mau humor de buscas e de rebuliços injustos.

Algumas vezes também ele se imiscui, com toda a sutileza, em assuntos melindrosos, de ordem imaterial, e então a sua malícia chega a uma perversidade quase sinistra. E, com estas desordens, o nosso embaraço aumenta, porque não as podemos atribuir a outrem.

Não há homem grave que não tenha dito o seu disparate; não há mulher de espírito que não tenha tido alguma ocasião de parecer estúpida. Quando o relâmpago passa e o raciocínio se restabelece, o fato está consumado e o indivíduo já não tem tempo senão de perguntar-se a si próprio: mas como pude eu dizer semelhante barbaridade?!

Mas dizer, ainda assim, é pouca coisa, em comparação com o escrever, visto que a palavra falada voa e a escrita fica. Ora, conquanto a ponderação dos dedos seja mais pesada que a do cérebro, porque a pena é como que um conta-gotas da imaginação, ainda assim as palavras por vezes se precipitam, outras se diluem ou evaporam de todo antes de caírem no papel, quando não mudam de forma sem ter perdido, para isso, os elementos essenciais. 

Ai, então, do escritor…

Foi o que me aconteceu na minha última crônica. Nessa ocasião, positivamente, o malicioso diabrete, em vez de se entreter pelo interior da casa, escondendo objetos materiais, achou preferível entrar no meu escritório e ocupar-se, de um modo mais original, em caçoar comigo. Esperou que eu estivesse com a pena na mão, e quando me viu bem absorvida, alterou a posição das letras de um nome que eu julgava muito convencidamente estar escrevendo, e que era — Melo —, para outro — Lemos —, que não havia razão nenhuma para eu escrever! Com as mesmas letras, exceção de uma, transformou uma palavra em outra palavra e deixou-me entregue ao destino.

Não posso compreender como esse fato se passou, porque de mais a mais eu tinha justamente sobre a mesa, diante de mim, o livro do sr. Miguel Melo — Eça de Queiroz, de que citava até uma frase do prefácio.

O mais curioso é que repeti o erro, pois duas vezes escrevi esse mesmo nome dentro de um período curto, e só depois de impresso o artigo, lendo-o sossegadamente no meu jardim, à hora matinal, foi que me sobressaltei com a confusão e corri espavorida para a biblioteca, em busca do livro aludido. Teria eu sonhado? Seria efetivamente o livro de Miguel Lemos, quando eu o supunha de Miguel Mello? Mas não, mas não! Cá estava o volume, bem patente sobre a secretária. De modo nenhum eu poderia ter confundido o nome do seu autor. E arregalava olhos de espanto em frente ao fato irreparável, sem poder achar-lhe a explicação. De repente, vem um raio de alegria iluminar-lhe o espírito apreensivo. Tinha resolvido o problema: a confusão fora toda dos tipógrafos. Respirei com força, sentindo a minha consciência aliviada e feliz. Ah, os tipógrafos, que jornalista há que não se queixe deles? Respeitando o seu trabalho, o seu cansaço, as distrações naturais de quem copia milhares de palavras em horas de fadiga e de sono, eu não os apoquento com retificações, nem reclamo se leio uma palavra ou outra trocada em meus artigos, e Deus sabe, entretanto, como isso me incomoda…

Quando tal acontece, porém, atiro desapiedadamente todas as responsabilidades para cima da minha pobre caligrafia, afogando em mim mesma todas essas decepções, de resto inevitáveis a quem trabalha para a imprensa.

Mas, o caso mudava agora totalmente de figura e eu reclamaria aos berros contra a alteração que, não só me prejudicava a mim, como ainda ia ferir um outro autor, que tem jus a toda a minha consideração e ao meu respeito.

Sentei-me à mesa, tremendo de indignação. O tinteiro escancarado abria o seio negro à minha angústia, convidando-me ao desabafo: e, na ânsia de uma reparação imediata, escrevi à administração desta folha uma carta interrogativa e queixosa, com pedido de retificação urgente.

Felizmente, essa carta ainda não tinha partido, quando alguém me vem dizer, avisado por um revisor d’O Paiz, que o engano tinha sido meu!

Não se supõe com facilidade o espanto de uma pessoa ao encontrar-se nas absurdas circunstâncias de se tornar repentinamente de acusadora em ré, com mais grave culpa, do mesmo crime que profliga, e do qual não encontra razão explicativa.

Eu não tornei a ver os meus originais, mas, se o revisor, prevendo o meu assombro e naturalmente a minha queixa condenatória, se apressou em me fazer ciente do meu engano (infelizmente quando ele era já irremediável), era porque o erro fora meu, e nada me restava senão confessar a culpa, batendo três vezes no peito com a maior contrição.

É o que estou fazendo.

*

Fui há dias convidada por uma amiga para ir em sua companhia ver um estabelecimento industrial que interessa muito particularmente às donas de casa: a Lavanderia Higiênica da rua do General Polidoro. O assunto daria para uma crônica de 20 tiras de almaço, se eu tivesse agora espaço para obedecer a todas as suas sugestões: comparação desse edifício amplo, claro, feito propositadamente para o fim que preenche, com os quartos de cortiço onde ordinariamente se amontoam as roupas dos fregueses e as dos moradores do compartimento; as tinas de pequena capacidade, em cuja água parada as lavadeiras da cidade mergulham as peças de várias procedências e várias utilidades, com os grandes cilindros rotativos, de água renovada, e onde o linho não sofre atritos de nenhuma espécie; falaria das vantagens da sua estufa de desinfecção; dos seus maquinismos simples, modernos, movidos por eletricidade; das suas operárias de aspecto são, bem escolhidas, e entoaria um hino de louvor à iniciativa dos seus proprietários, moços cheios de confiança no futuro e de entusiasmo pelos progressos da nossa cidade.

E nos grandes centros como é o Rio de Janeiro, onde não podemos gozar as delícias de termos a nossa roupa branca lavada nas águas cristalinas de um rio, e corada sobre estendais de madressilva cheirosa, já é uma delícia podermos contar com uma lavanderia, onde não se usam os terríveis ingredientes de que abusam as particulares, como a tal “água sanitária” despedaçadora do linho, e em que este linho não sofre perigo de contágios nem corre o risco de nos trazer para casa certas pragas, infelizmente frequentes nas alcovas apertadas dos cortiços promíscuos. Na impossibilidade material de me deter neste assunto, não quero, entretanto, deixar de enviar daqui os meus cumprimentos aos organizadores da Lavanderia Higiênica, srs. Machado, Christophe & C. 

As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.