Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.294-299. Publicada, originalmente, em O Paiz, coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 30/01/1912.

Caminhar pelas ruas de Santa Teresa num dia de verão às horas de sol quente é uma história que só pode saber bem a monges carecidos dos agridoces flagícios da penitência.

Quem não tenha grandes ambições de bem-estar na vida eterna será de bom conselho desistir de semelhante empresa ou adiar tais caminhadas para os instantes do crepúsculo ou do alvorecer.

Já tenho dito várias vezes, sempre que me posso referir a este velho bairro, a que tão bem caberia a doce e refrigerante denominação de umbroso, que não há em todo o Rio de Janeiro outro mais desabrigado nem mais nu. A montanha verde, em que deveriam chilrear aves felizes e murmurar águas frescas, só tem árvores e flores dentro das suas chácaras e dos seus quintais.

A própria floresta natural perde os seus mais belos exemplares de plantas vigorosas pela devastação do machado ou das tempestades, sem que os guardas florestais, que ninguém vê nem conhece nas altas regiões entre a Carioca e as Paineiras, as defendam nem as replantem.

Quem já tenha percorrido a rua Aprazível de ponta a ponta, aí pelo meio-dia, ou tenha descido até a cidade pela rua do Aqueduto, ou mesmo pela de Monte Alegre, dirá se minto.

As calçadas imprimem às solas das botinas verdadeiros sinapinhos de esfolar a pele dos pés, ao mesmo tempo que a luz ampla e forte ofende a retina numa ofuscação estonteadora, quase dolorosa.

Basta dizer que não há bairro hoje nesta capital que não tenha o seu jardim público com o competente coreto para a música domingueira. Santa Teresa não tem nada.

Mas, confesso, cada vez que peço árvores para as descascadas ruas desta linda montanha, verdadeiro miradouro da formosa Guanabara e de toda a cidade que se derrama a seus pés, assalta-me um medo atroz de que façam a arborização de um modo incompleto, sem estudos prévios, de que possam tirar todo o partido que oferece um local tão privilegiado! Foi por isso com um sobressalto de alegria que li há dias um projeto de embelezamento, firmado pelo dr. José Mariano Filho, com relação a tão lindo e tão abandonado lugar.

Vê-se que esse projeto obedeceu a um estudo sério e que foi iluminado pelo gosto de um verdadeiro artista. Infelizmente, eu não espero vê-lo adaptado nem realizado tão cedo, pela simples razão de ser completo.

Nós não temos coragem para as obras definitivas. O medo que temos de gastar dinheiro com objetos úteis, de benefício geral, só pode ser equiparado à facilidade que temos em gastá-lo com assuntos, a bem dizer, de interesses individuais e partidários. Pois é pena.

Bom seria que o governo aproveitasse desde já a boa vontade deste brasileiro, cuja competência o próprio projeto evidencia, para o fazer transformar um trecho da cidade, destinado pela natureza a ser a sua maior maravilha, e que está ainda, como uma preciosa pedra bruta, à espera do seu lapidário.

A estrada que, serpeando morro acima, levasse o viajante desde o viaduto dos Arcos até o alto do Silvestre, ou até as doçuras inigualáveis do Sumaré, sendo feita como a descreve o dr. José Mariano, seria talvez no seu gênero a obra de arte de maior beleza e de maior poesia no mundo inteiro.

E deixemo-nos de modéstias e de fazer pouco caso do que é nosso, porque sempre é um prazer ter a gente certeza de certas superioridades.

Apuremos a fibra do bairrismo no sentido de melhorar quanto possamos as condições de beleza da nossa cidade, certos de que com isso nada teremos a perder, mas, tudo a ganhar.

Há, porém, um problema de que não cogitou o autor do projeto em questão, e que está pedindo de mãos postas que o resolvam de parceria com o outro: é o do morro de Santo Antônio. Ah, eu ainda não desanimei, nem deixarei de clamar a favor do infeliz, sempre que se me depare ocasião para isso; e esta é magnífica!

Ligados pelo aqueduto dos Arcos — que o projeto pretende transformar em um largo viaduto —, os dois morros de Santa Teresa e Santo Antônio formam como que os dois seios da nossa capital. Abstraindo da ideia de que um destes peitos é maior do que o outro, não é justo, ainda assim, que a um se dê tudo de que ele carece e ao outro não se dê coisa nenhuma!

A minha opinião é que o sr. dr. José Mariano deve completar agora os seus estudos, fazendo com que a linda estrada que delineou para Santa Teresa, e que mais tarde ou mais cedo terá de ser feita (e neste caso melhor seria que o fosse já), irradie a sua beleza, além do viaduto, por avenidas circulares, terraços floridos e o parque que em cima coroasse com o seu diadema de esmeraldas o pobre morro de Santo Antônio.

Note-se, para inteiro conhecimento da minha imparcialidade, que visto à noite das minhas janelas o morro de Santo Antônio, tosco e sem iluminação como está, dá uma impressão de encanto muito singular e de grande poesia, dentro do panorama luminoso de todo o resto da cidade. Mas como a minha veleidade não me faz chegar ao ponto de pensar que o Rio de Janeiro foi feito para mim só, não cessarei de pedir para o bem de todos que tratem afinal de civilizar aquela dura terra de crosta vermelha, à que menor enxurrada se desfaz em ondas de sangue com que atola as ruas e praças da cidade baixa.

Não ouso já com ânimo tranquilo solicitar os prefeitos para este assunto, a que todos eles têm ligado uma atenção vaga, ou antes: a que nenhum deles ainda prestou nenhuma atenção. De resto, o pobre Santo Antônio perdeu a faculdade de realizar milagres, e até parece vítima de bruxedos; será talvez por isso melhor deixá-lo a sós com a sua miséria e a sua má fama…

Mas agora que alguém olha com imprevisto carinho para Santa Teresa, a minha pena, ainda surpreendida, não pode deixar de apontar semelhante fato como um fenômeno que a enche de espanto, e de pedir ainda uma vez misericórdia para o infeliz.

Louvado seja Deus, que ainda há quem tenha olhos de artista e de poeta nesta nossa terra!

Agora mesmo, à hora em que escrevo estas linhas, levantando casualmente os olhos para a janela aberta em minha frente, deparei com um dos quadros mais belos que tenho visto em minha vida. Além da baía cor de ardósia, num fundo iluminado de céu cor de ouro e verde-claro, toda a enorme faixa da serra dos Órgãos se desenha em azul negro com todas as suas saliências e contornos maravilhosamente bem acentuados e visíveis. É um esplendor. Para que esse espetáculo, e tantos outros lindíssimos de aspectos diferentes sejam facilitados a muito maior número de pessoas, é que o dr. José Mariano quer fazer das estradas de Santa Teresa caminhos suaves, a cuja sombra cheirosa seja doce parar para se ver o que há de lindo a ver-se na deliciosa montanha.

É teimar; é teimar!... Quem sabe?

 

 

Temas: Administração pública; Rio de Janeiro; miséria.

 

 

 

As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.