A entrada do Rio de Janeiro por terra...

 

Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.94-99. Publicada, originalmente, em O Paiz, coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 3/05/1910.

A entrada do Rio de Janeiro por terra, isto é, para quem vem pela Central, é de uma fealdade verdadeiramente inqualificável! Aquelas casinholas dos subúrbios, desproporcionadas no feitio e de cores variegadas e vistosas, gaiolas de grilos borradas a anil vivo e encimadas por platibandas furiosamente horripilantes, são de um efeito aterrador, principalmente para quem traz na retina, ainda viva e fresca, a visão das casas de São Paulo, já não digo os palácios, de que tanto se ufanam os paulistas, e em que talvez haja um pouco de excesso na fantasia da sua arquitetura; mas principalmente nas casas de residência particular, riscadas com habilidade por arquitetos de bom gosto e que dão às alamedas da cidade um aspecto novo e muito interessante. É bem possível que eu esteja dizendo uma heresia, preferindo o estilo paulista na arquitetura das habitações de menos opulência, por apreciar nos grandes edifícios linhas serenas, menos revoltosas e mais clássicas, mas, na verdade, o que principalmente me seduziu na capital do grande estado vizinho foi o estilo original, novo, misturado, das suas cottages... cosmopolitas. Digo assim, porque não me parece que o estilo da arquitetura paulista tenha sido procurado no de outra qualquer nação; parece-me antes um produto da terra, criado pela influência de várias nacionalidades conjuntas e que transparecem nesta e naquela fachada, em um arco de janela, em um beiral estendido de telhado, ou na combinação das cores, vermelha dos tijolos com o reboco e a cal amarelada das paredes.

Há casas que em certas particularidades nos fazem lembrar as habitações campestres da Bélgica e da Holanda, ao mesmo tempo que acordam a lembrança das da Alemanha ou da Inglaterra. Resulta de tudo isso um tipo novo, que, se não dá suntuosidade à cidade, dá-lhe poesia e distinção. É talvez devido a essa circunstância que a mesquinha, mas agressivamente feia casaria dos nossos subúrbios dá, a quem vem de São Paulo, uma ideia tão desagradável e tão triste do Rio de Janeiro.

Está claro que não se pode exigir que os subúrbios, lugares da cidade habitados exatamente pela parte mais modesta da sua população, resplandeçam pela magnificência dos seus parques floridos e dos seus palacetes, mas o que já se pode exigir é que na sua simplicidade esses arrabaldes não ofendam a vista de ninguém pelo mau gosto dos seus prédios, mesmo pequenos ou insignificantes. Cada bairro precisaria estar sujeito à jurisdição técnica de um consultor de arquitetura, de modo a poderem ser evitados tantos disparates que por aí se dão. Cada bairro tem a sua feição própria, com a qual deve estar de acordo a arquitetura das suas casas, grandes ou pequenas, guardando entre si uma certa harmonia de forma e de colorido, que antes acalme do que irrite os nervos de ninguém.

Se ao menos todas as ruas dos subúrbios fossem arborizadas! Mas se não o são nem mesmo as de outras partes mais luxuosas da cidade, como poderíamos impor que o fossem as dessas bandas tão descuidadas?

A árvore é, entretanto, um recurso maravilhoso para o embelezamento fácil e barato das vias públicas, e Deus sabe quanto as dessa zona batida de sol se sentiriam refrigeradas e agradecidas, se as ensombrassem com as copas redondas de arvoredos bem escolhidos.

Aí está outra coisa muito bem estudada em São Paulo e muito digna de chamar a atenção de todo o viajante curioso e de apurado gosto: a aplicação das árvores no embelezamento da cidade. Parece-nos que não temos aqui senão o oiti, que é a variedade mais aplicada nas nossas praças e ruas; lá, a cada alameda, a cada rua ou a cada avenida, corresponde, como toda a gente sabe, uma espécie de planta diferente, o que dá a cada uma delas um aspecto diverso e encantador. Se uma rua é toda plantada de eucaliptos, magnificamente dirigidos e bem cuidados, já outra ostenta só magnólias, ou plátanos, etc. E todas essas árvores, que inquestionavelmente representam um dos maiores encantos da cidade, estão limpas, corretas, escovadas, como quem acaba de fazer a sua toilette com todo o esmero e vaidade.

É provável que a arborização de São Paulo consuma uma boa verba à sua prefeitura, mas ninguém que a veja considerará mal empregada semelhante despesa.

Ora, nós precisamos muito mais do que São Paulo de um sistema, o mais aperfeiçoado e o mais disseminado que nos for possível, de arborização, primeiro, porque o nosso clima ardente precisa mais de sombras refrigerantes do que o clima frio da cidade a que aludo; segundo, porque as nossas edificações, mais também do que as de São Paulo, lucrariam com o disfarce piedoso do véu de folhagens verdes das mimosas ou das acácias, que lhes atenuasse a disformidade de certas cimalhas pesadonas…

Felizmente, o amor à árvore começa a revelar-se também entre nós. Acabo de ler em uma das nossas folhas que a formosa Paquetá, onde há as mais belas e mais frondosas mangueiras que tenho visto, pérola da Guanabara, ilha nascida para os sonhos da mocidade em um idílio de amor, vai celebrar em um destes dias a sua festa das árvores.

Nesse dia aquelas águas, que na sua placidez mais parecem doces que salgadas, refletirão certamente, no tumulto das cores variegadas, as centenas de sombrinhas com que as cariocas se resguardem, debruçando-se das amuradas das barcas, para verem as praias brancas onde se estrelam altos coqueiros e as redondas e grandes pedras postas aqui e além sobre o cristal das águas pela mão misteriosa e artística de algum deus marinho ainda ignorado. Mas já Paquetá se não contenta só com as belezas da sua natureza privilegiada; quer também gozar as sensações da arte e reclama condução para, em noites de espetáculo, vir aos teatros!

E tem razão, porque a temporada que se anuncia para este ano deve abalar a curiosidade até do Dedo de Deus! Para ver Augusto Rosa, o finíssimo ator de comédia, que aí nos chega com a companhia do D. Amélia, de Lisboa, vale a pena sujeitar-se uma criatura de bom gosto aos mais árduos sacrifícios. Eu já estou antegozando o prazer intelectual de o ver e de o ouvir e, embora fosse moradora de Paquetá ou, ainda de mais longe, da Piedade ou de Mauá, reclamaria condução aos berros, só para vir aplaudir nos seus papéis e nos seus monólogos esse artista, considerado em sua terra como o mais ilustre de todos os artistas dramáticos da atualidade no seu país.

E, além do teatro dramático estrangeiro, nós teremos o nosso, peças escritas ao influxo dos nossos costumes e do nosso clima, peças brasileiras destinadas a enriquecer a nossa literatura em um novo filão, ainda pouco ou quase nada explorado. E, além dos dramas e das comédias, eis que se abrem também as portas do Lyrico para a companhia Sanzoni, em que o barítono Eugenio Giraldoni fará estremecer o público ao som da sua voz e da sua arte já famosas…

Realmente, com tantos atrativos, os teatros este ano terão os seus lugares disputados, não nos causando espanto que até as sereias, que por aí se disfarçam em botos, venham do fundo do mar ouvir os cantares inumanos de Tristão e de Isolda...

As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.