Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.172-177. Publicada, originalmente, em O Paiz, coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 1/11/1910.

Em um destes últimos dias tomou lugar em um bonde da companhia Vila Isabel uma pobre senhora sexagenária, de modo tímido e trajes modestíssimos.

Não conhecendo bem o bairro para onde se dirigia, pediu ao condutor que a instruísse e guiasse de modo a fazer parar o bonde no ponto mais próximo de uma certa rua interior, cujo nome me escapa. Mas o condutor, coitado, estava nas mesmas circunstâncias: ignorava por completo a existência de tal rua, prontificando-se, entretanto, para, por sua vez, ir pedir ao motorneiro que os elucidasse. Mas, coitado do motorneiro, também ele estava imerso na mesma doce ignorância dos outros dois.

Em tais emergências, mais frequentes do que se pode imaginar, acontece quase sempre haver no bonde um passageiro providencial, que intervém gratuita e amavelmente na questão e esclarece tudo. Pois desta vez nem isso. Foi em vão que a pobre senhora relanceou o olhar interrogativamente por todos os companheiros de viagem. Ninguém lhe acudiu, e o bonde zunia por sobre os trilhos indiferentemente. Era evidente que aquela senhora não ia passear por mera distração, nem ia a uma visita superficial, destas que tanto podem ser feitas em um dia como em outro. O seu chapeuzinho ruço, os seus sapatos de lona pardos, a sua magra bolsinha de couro puído, informavam de que ela ia procurar alguém, talvez por sacrifício, certo por necessidade ou por dever.

Tal cena fez-me acudir à ideia a vantagem que haveria para o público se as companhias de bondes do Rio de Janeiro fornecessem aos seus condutores e motorneiros pequenos guias ou dicionários de nomes das ruas e praças de cada bairro a que eles têm de servir. O uso fácil dessa carteira portátil cortaria de uma vez qualquer embaraço de informação e esse dever de gentileza da companhia para com o público ficaria para sempre cumprido! Meditem os senhores diretores das empresas de viação neste alvitre que aqui lhes lembro e que é de fácil realização e pequena despesa, e tratem de adotar sem demora, na certeza de que prestam com isso um serviço, mais importante do que lhes parecerá talvez, à população da nossa capital. Qualquer condutor, folheando meia dúzia de vezes o pequeno dicionário de ruas e praças de um só bairro, ficará depressa com elas de cor para dar uma resposta rápida a quem lhe pedir uma informação; e, quando a sua memória for tão empedernida que se negue a esse trabalho, não lhe será penoso consultar na ocasião o seu livrinho para uma indicação positiva e indispensável.

O Rio é uma cidade enorme e onde o bonde tem a magna importância; tudo o que se fizer para melhorá-lo não é demais, porque talvez em nenhuma outra cidade do mundo ele tenha do público a concorrência e o favor que tem aqui. Vendo os sapatos velhos, o xale ruço, o rosto aflito daquela pobre senhora, prometi a mim mesma fazer-me sua advogada, embora a defesa da sua causa em nada lhe pudesse ter aproveitado na situação em que a vi. Para que tal situação não se repita é que, entretanto, escrevi estas linhas, que aqui ficam como sementes em um areal.

Por falar em sementes: gostei de ler, na semana passada, o que disse o Jornal do Commercio sobre a cultura das orquídeas em São Francisco da Califórnia.

Era aquilo mesmo que eu desejava para o Rio de Janeiro e em prol do que tenho gasto inutilmente a minha tinta! Os nossos colecionadores são de um egoísmo atroz, abafando no fundo dos seus jardins ou das suas estufas os exemplares das suas orquídeas mais raras ou mais lindas. Entre nós não há propaganda; não há viveiros, não há disseminação de gosto nem de interesse por essas plantas tão singularmente belas, tão singularmente expressivas e tão nossas!...

Arrelia-me, afinal, essa terra de São Francisco da Califórnia, perfumando-se com os laranjais que lhe dão fama universal, laranjais opulentos, filhos dos nossos humildes laranjais da Bahia, e agora ostentando o luxo magnificente de orquídeas, naturalmente nossas também, e que lá, engordadas por um tratamento especial e inteligente, são vendidas como joias, dando, ao mesmo tempo que dinheiro, fama e brilho aos jardins e às estufas dos parques americanos em que se trata da sua cultura e da sua vasta reprodução. Para isso não nos faltam jardins; podem fazer-se viveiros de orquídeas até nos cemitérios, onde, se já em todo o caso temos flores bonitas, ainda não temos iluminação à noite, nem nas aleias principais. Vi, na quarta-feira passada, pessoas que foram acompanhar um enterro a São Francisco Xavier voltarem para casa com os sapatos forrados de lama e os fatos encharcados. Chovia copiosamente. Fizera-se escuro antes das seis e meia da tarde. Os amigos do morto, no trajeto para o portão do cemitério, onde os aguardavam os carros, caminhavam ao acaso, afundando os pés aqui e ali, na terra empapada do chão.

Não sei se nas outras cidades do mundo há ou não há luzes no próprio recinto dos cemitérios; parece-me ainda assim que, não as havendo fixas, seria de bom aviso havê-las conduzidas pelo pessoal de serviço do próprio cemitério, em ocasiões como a que acabo de citar. A luz em nada perturbaria a paz dos mortos e seria sempre de boa vigilância à tranquilidade dos vivos. Bem sei o pavor que, em lugares muito menos sugestionadores, a treva infunde!

A estrada em que moro, por exemplo, não goza da claridade nem da mais tênue lamparina, apesar de estar no centro da cidade. O nosso lampadário é o firmamento. Quando o céu quer, a estrada branqueja a nossos pés; quando não quer, caminha-se às apalpadelas. Que acontece com tão delicioso sistema? Os soldados de polícia têm medo de fazer a ronda à mera claridade das estrelas e cá não vêm. De cada touceira de mato de um ou de outro lado do caminho esperam a cada momento ver irromper uma multidão de bandidos que os aniquilem. Assim, morrer por morrer, que morram os moradores do lugar!

Nós estamos resignados; à espera. Compreendemos a situação, que diacho! Não são só as criancinhas que têm medo do escuro... A treva está cheia de coisas desconhecidas e ameaçadoras... e seus mistérios!

Prefiro falar de claridades, referindo-me ao espírito luminoso da poetisa e cronista pernambucana Edwiges de Sá Pereira, que acaba de regressar ao Recife depois de alguns dias de repouso entre nós. Repouso, a bem dizer, não. Enquanto esteve no Rio de Janeiro, esta senhora, que é também professora pública no seu estado, não cessou de visitar as nossas escolas municipais, estudando-as, em todas as suas práticas, com um interesse apaixonado e a ânsia de levar para a sua terra o exemplo de tudo quanto nelas viu de melhor. Já de há muito tempo esta escritora faz uma bela e corajosa campanha a favor da instrução pública em Pernambuco. É esse o assunto predileto das suas crônicas semanais.

Não pode haver nenhum mais patriótico. Não há de estar longe o dia em que os poderes do seu estado a ouçam com atenção e cedam às suas súplicas de reforma e criação do ensino primário na sua terra. E ela terá, então, o inefável gozo de ver triunfar a ideia por que se tem batido tão desveladamente, tão amorosamente!

As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.