Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.131-137. Publicada originalmente em O Paiz, de 16/08/1910.
Foi pena que as quarenta poltronas da Academia Brasileira de Letras não estivessem quase todas ocupadas na bela noite da recepção de Paulo Barreto... Digo quase, porque ninguém ignora que algumas dessas cadeiras pertencem a escritores que vivem fora do país ou em estados afastados da capital.
Concedendo mesmo que um ou outro dos acadêmicos residentes no Rio de Janeiro não pudesse, por motivos muito imperiosos, comparecer à festa solene da recepção de um novo colega, ainda assim o número de lugares vazios era tão grande e punha na sala um vácuo tão frio, de uma indiferença tão inexplicável e absurda, que não podia deixar de ser notada e causar estranheza a toda a gente que se apinhava ali, em toilette de festa, em torno do estrado dos consagrados, com ouvidos curiosos e as mãos fremindo para os aplausos justos. De resto, era difícil conceber a ideia de que todos os ausentes tivessem sido impedidos de assistir à sessão da sua casa, por motivos de força maior…
E nunca a sala da Academia esteve mais linda. Os ramos multiplicavam-se, enchendo o ambiente com o aroma capitoso das angélicas abundantes, como a prepará-lo para a vibração da palavra moça do recipiendário. E o discurso claro, sóbrio, elegante do novo acadêmico foi ouvido do princípio ao fim com um sorriso de deleite e de simpatia. Através da sua comoção, que não seria pequena certamente naquele instante inesquecível e brilhante da sua vida literária, ele deveria ter percebido isso mesmo, gozando o prazer, bem raro, de se sentir compreendido e amado pelo seu público.
Com o mesmo talento, que tem, a mesma novidade de estilo, a mesma observação da vida e das coisas da sua terra, o novo acadêmico não teria despertado na alma da população carioca o interesse que despertou, se em vez de ser jornalista ele fosse apenas escritor de livros.
A não ser o teatro e o jornal, os outros gêneros literários como que isolam os autores do calor ardente da comunidade.
O jornalista, mesmo o mais aristocrático ou o mais independente, é um familiar, um amigo de todos os dias, espectador como nós das mesmas cenas misturado à nossa vida pela cadeia forte das opiniões.
Os outros escritores são mais ou menos idealistas, mais ou menos sonhadores, e a bem pouca gente interessa o sonho dos outros…
A última sessão solene da Academia de Letras atraiu-me muito especialmente, não só por ser a de recepção do escritor original que é Paulo Barreto, não só por se fazer nela ouvir a palavra sempre brilhante e sempre artística do escritor admirável que é Coelho Neto, mas também porque ela evocava a figura inconfundível de um poeta cuja obra leio sempre com ternura, porque ele me deu em vida, todas as vezes que o ouvi, a sensação de ser um bom, pelo menos literariamente falando, porque ninguém como Guimarães Passos parecia prezar tanto o talento alheio, recitando com entusiasmo ou carinho versos de poetas patrícios, seus contemporâneos, alguns seus desafetos, fazendo-lhes ressaltar o capricho das rimas ou qualquer outra das suas qualidades mais notáveis, provando assim, a par de uma frescura de memória incomparável, uma bondade incomparável também. A homenagem de um artista a outro artista, da arte que ambos professam, muito principalmente quando sejam ambos da mesma época e da mesma roda, não é coisa assim tão comum que passe despercebida a quem a observe de fora. E não pode haver homenagem mais agradável a um poeta do que a de saber que um outro poeta o saiba de cor. Era tal a memória de Guimarães Passos que se conta dele este caso: uma vez Artur Azevedo, vendo-se atormentado pelo pedido insistente de alguém, que exigia dele um soneto velho e perdido, respondeu a esse alguém que se esquecera completamente daqueles versos e não sabia agora onde encontrá-los.
Mas o homem não se resignou, queria o soneto, custasse o que custasse, e tanto indagou, e tanto se queixou, e tanto impacientou o boníssimo Artur, que este, em desespero de causa, mandou-o ter com Guimarães Passos, como a um último recurso. E o homem foi e o saudoso Guima recitou-lhe o soneto do princípio ao fim, sem um tropeço, sem a mínima hesitação, palavra por palavra, como se o estivesse lendo em grossas letras sobre um papel branco. Felicidade do pedinte, pasmo do Artur, que todavia costumava dizer:
— É o diabo... Se morre o Guima, enterra-se com ele a minha obra de poeta!
E o poeta dos Versos de um simples e das Horas mortas, quem o recita?
Não sei…
Entretanto, há nessas páginas graciosas ou melancólicas muita ideia a reter, e muita harmonia a repetir no carinho das salas pequenas, diante de um auditório compenetrado, desses que não estremecem só às lufadas febris dos gênios, ou às tiradas brilhantes dos atrevidos, mas que sabem sorrir, e sentir no sorriso o doce encanto da arte leve e discreta, ou sabem cerrar as pálpebras para verem dentro da própria alma a sombra fugidia do mesmo sentimento infiltrado em versos despretensiosos, escritos na areia, que a água lambe e leva, como estes das Horas mortas:
O SABOR DAS LÁGRIMAS
As salsas águas do mar
As fundas feridas curam,
Por isso muitos procuram
Na praia o corpo banhar;
Mas dizem que o sal batendo
Nas chagas dói de tal sorte
Que a criatura mais forte
Por isso eu choro, que as bagas
Do pranto, caindo n’alma
Trazem depois doce calma
Saram-me as íntimas chagas;
Mas as lágrimas, que são,
Como a água do mar, salgadas,
Curam, porém, desgraçadas,
Causando sempre aflição.
Note-se que abri o livro ao acaso, sem a preocupação da escolha.
Estas sessões da Academia têm, além do brilho das consagrações, para o que ela foi criada, a doçura de uma romaria ao passado, que tanto mais interessa ao público quanto ele ainda é recente. Entre as pessoas que estavam no vasto salão do Silogeu, qual delas não teria conhecido a pessoa elegante e altiva de Guimarães Passos, quer andando na rua com o chapéu de feltro a ensombrar-lhe o rosto moreno, de tipo mais espanhol que brasileiro, quer nas festas literárias, de casaca perfumada pela grande gardênia branca da botoeira? Ninguém.
O que é incontestável é que a Academia venceu a quizília ou má vontade que porventura lhe tivesse um ou outro cá fora. Em toda a parte do mundo a mocidade combativa gosta de dar as suas marteladas, mais por troça que por maldade, à porta dos templos sagrados.
Aqui houve também as suas marteladas, mas não foram muitas, e é natural que agora, com a entrada de um moço, que começou demolidor, para a Academia, os outros moços, em vez de golpearem a martelo as suas portas, achem mais prudente bater-lhes com os nós dos dedos, na esperança de poderem lá entrar. Pela unanimidade da consideração da imprensa e pelo açodamento com que tanta gente procura assistir às suas sessões solenes, é evidente que a sociedade brasileira preza a Academia. O que falta agora é que a prezem igualmente todos os acadêmicos, deixem-me insistir, para que dos novos recebidos se não possa suspeitar que só os estimam e acolhem os poucos que assistem a essas sessões, às quais sempre compareceu, além do chefe do Estado e alguns dos seus ministros, o que a sociedade brasileira tem de mais elevado, de mais elegante e de mais culto. De 24 membros da Academia que me consta estarem nesta capital, só dez foram receber o novo colega. Nem ao menos metade dos presentes. É realmente pouco. Estas ausências da maioria não podem de modo algum fortalecer o prestígio da instituição. E todavia a Academia pode dizer-se que iniciou este ano os trabalhos para que foi criada: começou o vocabulário brasileiro, distribuiu o serviço do dicionário geral para a propaganda da sua ortografia e publicou o primeiro número da sua Revista, volume de umas 250 páginas. Esta atividade prova, se os acadêmicos não esmorecerem, que a Academia é uma instituição útil e que dela muito pode esperar a intelectualidade brasileira.