Quando às 6h30 da manhã...

 

Fonte: Júlia do Rio: crônicas da belle époque carioca. Organização de Anna Faedrich. Rio de Janeiro, Bazar do Tempo, 2024, pp.84-92. Publicada originalmente em O Paiz, na coluna semanal "Dois dedos de prosa", de 23/11/1909. 

Quando às 6h30 da manhã de sábado abri a janela do meu quarto, já o sol beijava a terra com ardor de namorado e na mangueira próxima uma cigarra estrídula anunciava o calor.

Interroguei o espaço com um olhar de susto. Que seria de mim, nesse dia em que me veria obrigada por várias solicitações a ir à rua mais de uma vez? Poderia eu, mísera mortal, chegar à noite sã e salva, expondo-me desde manhã à afronta daquele sol? Não.

O melhor seria ficar em casa, à doce sombra das amadas telhas, ouvindo cantar a cigarra,

Dont le chant invite à clore les yeux, 
Et qui, sous l’ardeur du soleil attique,
N’ayant chair ni sang, vis semblable aux 
                                                      [Dieux

segundo a expressão de Leconte de Lisle, e zumbir as abelhas nos ranúnculos multicores do jardim, ao mesmo tempo que, balouçando-me na minha rocking chair, eu lesse os artigos dos jornais do dia, o que é, posso afirmá-lo, bem mais agradável do que fazê-los... Mas ante essa pacífica perspectiva levantou-se o espectro da minha modista, reclamando a minha presença no seu atelier essa manhã, às nove horas, para uma última prova! Sabe Deus e talvez também o diabo quanto as modistas são implacáveis e como nós, as mulheres, as tememos. Esta, se não me visse ali submissa à hora marcada pela sua deliberação, poder-se-ia vingar depois da minha indolência, negando-me o vestido na hora exata em que eu dele carecesse.

Cantasse a cigarra, flamejasse o sol, eu iria dar as minhas voltas matinais, tornasse depois embora derretida para casa. E assim quis o destino, senhor autoritário e que não admite contraditas, que nessa manhã de fogo eu descesse à cidade! Desci e não voltei para casa derretida, mas com duas cestinhas de morangos e um potezinho de creme para o almoço.

O leitor é capaz de perguntar: “Mas que nos importa a nós saber tudo isso? Fale-nos no hino, na bandeira, na parada, nas crianças das escolas, nas discussões dos senhores deputados, na apuração das eleições para intendentes municipais, na inauguração da estátua de Barroso, em mil coisas diferentes, menos nessas frivolidades sem importância”.

Sem importância? Não. É sabido que muitas pequenas coisas somadas dão às vezes resultados estupefacientes! Esta, relatada, demonstra, unida às outras que se lhe seguem, o que uma filha dos trópicos pode despender de energia e como pode viver a vida intensa que vivem as europeias nos seus dias de primavera ou de inverno.

Que saiba o mundo quanto as brasileiras são ativas mesmo em dias inclementes em que o céu dardeja lumes sobre a sua cabeça e as pedras da calçada lhes calcinam as solas das botinas. Quando voltei, a cigarra tinha-se calado de cansada ou morrera arrebentada.

Não se ouvia nem um pio de ave, mas só o zunir dos elétricos na estrada, em um som áspero, agudo, de gênio irritado pela canícula. Pois acabados os moranguinhos e dadas umas voltas pela casa, eis-me de toilette transformada e descendo de novo da montanha à planície, à fornalha, ao desespero, à vida!

Os meus primeiros passos levaram-me a cumprimentar Carmen Dolores, a intrépida e brilhante colaboradora desta folha, a quem felizmente encontrei já convalescente, sentada ao lado das filhas no seu quarto do hospital de São Sebastião. Felicitada a escritora ilustre, que espero ver em breve reassumir o posto que tão valentemente e tão dignamente ocupa neste lugar, desci a rampa do jardim e consultei o relógio. Duas horas. Era exatamente o momento designado para a inauguração do Círculo de Belas Artes, no palácio Monroe.

Parti para o Monroe. A fundação do Círculo de Belas Artes veio reavivar-nos as saudades do extinto Centro Artístico, que tantos serviços prestou às artes e tinha, aliás, um programa mais vasto e mais complexo, a começar pelos jantares em comum de artistas de todos os ramos de arte com jornalistas, críticos e amadores, que, postos assim frequentemente em contato, radicavam amizades, acendravam estímulos, engendravam dedicações e de tal modo difundiam o gosto pelas artes, tão tíbio ainda e tão desorientado no nosso país. Por que acabou o Centro Artístico?

Nunca eu o soube, apesar de ter em casa quem dele fizesse parte. Acabou como tudo acaba, pela ação corrosiva do tempo, que destrói até as coisas mais úteis!

A exposição de arte no palácio Monroe, com a qual o novo Círculo inaugurou a sua bela campanha, e que aí está franca ao público, trouxe-me à lembrança a maravilha que foi a exposição de arte retrospectiva do antigo Centro, devida principalmente à prodigiosa atividade, ao comovente entusiasmo de Luiz de Castro. A exposição atual é mais restrita, mas interessantíssima, e os seus organizadores devem ser louvados pelo esforço com que conseguiram reunir um número considerável de bons trabalhos, principalmente de pintura. Lá fomos encontrar algumas telas nossas conhecidas antigas, de que nos lembrávamos com saudades; outras também antigas, mas que não conhecíamos, e outras novas em folha, algumas das quais figuraram ainda na exposição oficial de setembro. É admirável como conseguiram, em um salão de luz tão desencontrada, colocar as telas em situação adequada, sem prejudicar nenhuma, e dando uma variedade encantadora de agrupamentos. O salão ficou por entre aquelas colunas brancas como um jardim de arte.

E tudo que lá está pode ser visto sem grandes sobressaltos para o gosto de cada visitante. Não citarei este ou aquele quadro, que m’o não permite a exiguidade do espaço de que disponho, pouco mais vasta que a da minha competência, mas não me resigno a esquecer uma novidade que lá, pela primeira vez, aparece e é a pintura a fresco do mestre Henrique Bernardelli. Pintura a fresco, a têmpera e em quadro de cavalete. Bernardelli fez um reboco de muro sobre uma tela e pintou-lhe em cima um belo e arrogante mosqueteiro, a largas pinceladas, em um tom mais claro e mais simpático, talvez por mais leve, do que os seus retratos dos últimos anos. Além do mosqueteiro fez, pelo mesmo processo, uma admirável cabeça do seu irmão Rodolfo, cabeça de impressão que ficará sendo o mais intelectual dos retratos do grande escultor de Pedro Álvares e de Pero Vaz de Caminha.

Que o público visite largamente essa exposição e que compre algumas telas é o meu fervoroso apelo, não só pelos artistas que por aí vegetam sem estímulo de nenhuma espécie e que apesar disso não desanimam nunca, e também por ele, público, isto é, pela nossa sociedade, ainda tão aferrada ao camelot, à fancaria, à pacotilha da arte de comércio, que tantas vezes escandaliza e molesta por esses salões o nosso gosto.

Eu não me farto de repetir o que várias vezes tenho escrito nestas colunas acolhedoras: de tudo que a gente compra para adorno próprio ou da nossa casa só o que é obra de arte aumenta de valor com o tempo.

Sei de uma pessoa que há uns 15 anos comprou na Europa dois quadrinhos, de preço modesto, de um pintor que morrera havia pouco. Hoje esses dois quadrinhos valem algumas centenas de libras. Comprai uma joia esta manhã, ide vendê-la logo à tarde —dar-vos-ão metade do seu custo. E tudo mais é assim, exceto obras de arte. Meus leitores, não deixeis de visitar a exposição do palácio Monroe e esforçai-vos por levar para vossas casas a obra que nela mais vos agradar. Será de algum modo uma economia: uma pequena galeria pode vir a ser um bom patrimônio.

Advertiu-me o meu relógio que eram quase quatro horas e que, se eu não me apressasse, não encontraria bom lugar no salão em que Medeiros e Albuquerque discorreria sobre o ciúme e os ciumentos.

Não só pelo conferente, como pelo assunto, era de prever que o salão se enchesse. A previsão realizou-se. Belo auditório e bela conferência. A hora deslizou com uma rapidez de adestrado patim sobre plano liso e sem obstáculo. Apesar do calor e da sede que me mortificavam, achei a conferência curta e, arrastando duas amigas, atirei-me para a Cavé, na ânsia do sorvete! Toda a gente tinha tido a mesma ânsia e sofri uns minutos tantálicos vendo, de goela seca, os outros deglutirem punchs e refrescos! Quando, finalmente, entrei em minha casa, encontrei hóspedes inesperados para o jantar. Arranquei as luvas, abri os braços, sorri, circulei da sala à cozinha e às seis e meia fomos para a mesa, porque eu à noite tinha um concerto a que seria uma barbaridade faltar.

E às oito e meia eu entrava no salão do Instituto Nacional de Música, meio morta de cansaço e agitando o leque furiosamente... Era o primeiro concerto de música de câmara executado este ano nesse estabelecimento de ensino, a que uma nova lufada de energia e de talento dá uma forte e animadora palpitação de vida.

O que foi esse concerto, infelizmente, não o poderá dizer muita gente, porque a ele assistiu um auditório diminuto; mas os poucos que tiveram essa fortuna, com que entusiasmo e com que ardor o aplaudiram! O programa, belíssimo e executado primorosamente, fez-nos esquecer cansaço e calor para nos manter em uma atmosfera de deleite, que só a boa arte sabe criar. Renovo os meus parabéns a Alberto Nepomuceno e chamo a atenção dos meus leitores para o concerto que sábado, no Teatro Municipal, dará a grande artista, essa admirável Paulina d’Ambrosio, que deve ser e é um verdadeiro ídolo na nossa sociedade.

Quando, nessa noite de sábado, me recolhi ao quarto, perguntei a mim mesma se a mais mundana e a mais ativa das parisienses, em contínua febre e em contínuo movimento, aguentaria sem desanimar um dia assim, sob tal temperatura. Imaginei que não, e adormeci, já sonhando com as harmonias do quarteto de Haydn em ré maior... 

julia-lopes-de-almeida
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.