Imagens do tempo
Escreveram-se muitos artigos e pronunciaram-se muitos discursos sobre a guerra da polícia contra os estudantes, e esse material será ponderado pelo estudioso daqui a x anos, se quiser formar juízo sobre a realidade do regime democrático em nosso país. Mas duvido que as palavras, por mais ajustadas que estejam aos fatos, convençam tanto o pesquisador futuro quanto as fotografias que ficaram da luta e enchem as revistas. Como falam!
Vendo-as e admirando-as, o cronista sente que a noção de testemunho deve ser revista em nossos dias, e que daqui por diante caberá talvez ao fotógrafo o primeiro lugar como informante da história. Já muitos pleitos se decidem pela prova da imagem, que inunda os autos de uma súbita e luminosa verdade. Não é demais esperar que os juízos históricos de amanhã repousem por sua vez no depoimento da objetiva, que captou, paralisou e cristalizou o fato controvertido, fazendo, por exemplo, pairar eternamente sobre a cabeça da vítima essa coronha de metralhadora que o comunicado oficial nega ter sido usada contra quem quer que seja; ou mostrando essas costas feridas, essa perna engessada, essa expressão de terror na face de uns, essa corrida desembalada de outros, perseguidos pela tropa incumbida de proteger o povo, e que o massacra. Há desmentidos no papel. Pra quê?
A fotografia não tem cor política, mesmo que a tenha o fotógrafo; e se há cenas posadas, ou maliciosas, que mal desvendam uma parte da verdade, ou a falsificam, o processo não se desvirtua pelo mau uso, e continuará superior ao testemunho escrito, que, ainda produzido de boa fé, está na dependência do maior ou menor domínio do indivíduo sobre as palavras; quem melhor as agenciar terá sorte de ser mais acreditado em detrimento dos simples. Ao passo que, no testemunho fotográfico, o operador se omite, e dá a um objeto destituído de amor, ou ressentimento a incumbência de ver e falar por ele.
O fotógrafo moderno, se ainda não o sentiu, precisa capacitar-se desse papel que o tempo lhe reservou. A noção dos riscos, ele por certo já a tem, à custa de ser pisado e esbordoado em todo episódio de comoção popular, cuja cobertura lhe seja ordenada. A polícia, como ninguém, sabe o valor de seu testemunho, e de saída lhe quebra a máquina, quando não lhe quebra os ossos. Ele carece de ter astúcia bastante para omitir-se estando presente, para esconder seu filme ou passá-lo adiante, trabalhando como numa rede de espionagem, exposto ao pior e preocupado mais em salvar sua documentação do que sua integridade física. Isso explica porque alguns deles podem tornar-se odiosos no contato com pessoas inofensivas, a quem procuram surpreender em flagrantes indiscretos ou ridículos: habituaram-se a dissimular diante da força, e não perdem o hábito.
No século 19, ao nascer, a fotografia foi sobretudo um elemento de satisfação burguesa, pela série de retratos de donas repolhudas e cavalheiros circunspectos que se recolhiam em álbuns de família. No começo deste século, tornou-se lírica, e foi fixar os namorados no jardim público, docemente enlaçados à beira do lago com cisnes. Numa e noutra fase, era contemplativa, estática. Hoje, é social e dinâmica, vai à rua em perseguição do fato, e não dos seus despojos: colhe o suicida no seu pulo do 20° andar, registra a miséria, o desemprego, o atropelamento, o jogo clandestino, o gol da vitória e mil fatos, ou circunstâncias de fatos, que de outro modo desapareceriam sem imagem ou seriam objeto de contínua divergência no plano das sensações, sem possibilidade de exame crítico. E percebe-se que muitos atos de violência ou injustiça já não podem permanecer impunes: há um fotógrafo que, profissionalmente, os denuncia.