Entediado de escrever, pedi à máquina que trabalhasse por mim, fosse compondo sem intervenção mental do cronista. E eis que o espaço se encheu com reflexões e impressões de grande finura, como jamais ocorreriam a este escriba cotidiano:

“A paciência, com perdão da palavra, é um biscoito moral, dado pelo céu a muitos poucos”.

“Deus, feito o mundo, descansou no sétimo dia. Pode ser que não fosse por fadiga, mas para ver se não era melhor converter a sua obra ao caos”.

“Tal é a nossa concepção de legalidade; um guarda-chuva escasso, que, não dando para cobrir a todas as pessoas, apenas pode cobrir as nossas: noutros termos, um pau de dois bicos”.

“Um cão, sobretudo se me conhece, se não guarda a chácara de algum amigo, aonde vou, se não está dormindo, se não é leproso, se não tem dentes, oh! um cão é adorável”.

“A infância, como a ciência, é curiosa sem asco”.

“Realmente, os anos nada valem por si mesmos. A questão é saber aguentá-los, escová-los bem, todos os dias, para tirar a poeira da entrada, trazê-los lavados com água de higiene e sabão de filosofia”.

“O sol é, na verdade, o sócio natural das alegrias públicas; e ainda as domésticas, sem ele, parecem minguadas”.

“O coronel Macedo tinha a particularidade de não ser coronel. Era major. Alguns amigos, levados de um espírito de retificação, começaram a dar-lhe o título de coronel, que a princípio recusou, mas que afinal foi compelido a aceitar, não podendo gastar a vida inteira a protestar contra ele”.

“Todo incômodo é aprazível quando termina em legado”.

“Ana nasceu metade freira e metade bailarina”.

“Vivia ele maritalmente com uma pérola que pouco antes encontrara no lodo. Na véspera descobrira em casa vestígios de outro amador de pedras finas”.

“Tão exigentes como os moradores da rua das Laranjeiras, que estão a bradar que a mandem calçar, como se não bastasse morar em rua de nome tão poético”.

“A reputação dos homens amorosos parece-se muito com o juro do dinheiro; alcançado certo capital, ele próprio se multiplica e avulta”.

“Nosso Estêvão, tão marechal nas coisas mínimas, como recruta nas coisas máximas”.

“Não aceito o oferecimento da leitura, porque não entendo bem o que os outros me leem; tenho os olhos mais inteligentes que os ouvidos”.

“Era uma dessas senhoras que fazem o mesmo efeito que um vaso de porcelana fina; toca-se-lhes com medo de as quebrar”.

“Moreirinha não compreendia o que é ser feliz sem publicidade. Para ele, a ilha de Citera não podia ser jamais a ilha de Robinson”.

“A música veio comigo não querendo que eu dormisse”.

“Basta amar para escolher bem. Ao Diabo que fosse, era sempre boa escolha”.

“Se achares três mil réis, leva-os à polícia; se achares três contos, leva-os a um banco. Esta máxima, que eu dou de graça…”

— Espera aí! exclamei indignado. Você está vestindo sabedoria de hoje com linguagem de ontem. Isso não é meu nem seu. De quem é?

Então a máquina me confessou que tudo era furtado do caderno de um certo Joaquim Maria, morador do Cosme Velho, falecido em 1908 e grão sabedor de coisas de ontem e de sempre.

carlos-drummond-de-andrade
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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