Lourenço Mário Prunes me assinala, na subida da serra, o aparecimento dos pinheiros. Eles eram os donos da terra, hoje são pouco mais que um enfeite na paisagem. Há outro enfeite, que é uma palmeira; o geógrafo me diz que ela veio do Norte, e depois se propagou livremente por aqui. Mas quase sempre é plantada. Não em duas filas, como as palmeiras imperiais que todo baronete do Estado do Rio erguia diante de sua casa, e os prefeitos do interior na frente das igrejas ou da Câmara. Às vezes em uma fila única, a modo de cerca, às vezes à volta da casa, como se esses estimáveis colonos de origem alemã ou italiana buscassem um pitoresco brasileiro para a paisagem que eles europeizaram completamente.

Pois aqui não há mato: há plantações de árvores; são eucaliptos e acácia negra, está fornecendo em sua casca o tanino para os curtumes da zona. Fora disso, e conforme a altitude, o que se vê é parreira, campos de trigo, quadras de milho para alimentar porcos, e alfafa.

As casas são quase sempre de madeira, muitas vezes com a parte inferior de “material”, cobertas com frequência de tabuinhas ou de zinco, o mesmo zinco tão encontrável nas colônias alemãs e italianas da serra capixaba. Mesmo no centro de Caxias há ainda muitas casas de pinho, todas antigas: hoje provavelmente não seria mais econômica essa construção. As pedras, abundantes na região, que às vezes lembra a Toscana, são usadas pouco na base das casas, muito nas cercas tão características desta zona de pequenas propriedades. Os colonos de origem italiana também usam o sótão, como os de origem alemã, mas não mostram o mesmo carinho germânico pela habitação limpinha, arrumada, de cortinas brancas.

Rodamos pelo centro de Caxias, olhamos a catedral imponente, encontramos de vez em quando um padre, nesta cidade que é das mais católicas do Brasil. Alguém me contou de que o povo do lugar tem birra de judeu, e os que vieram fazer negócios aqui foram sabotados até a desistência. Mas não parece se tratar de um preconceito propriamente racial, nem propagado pela competição mercantil, e sim de fundo religioso: outros semitas também comerciantes, os árabes, se estabeleceram aqui. Caxias é monoliticamente católica, contrário, por exemplo, da germânica Dois Irmãos, onde os sacerdotes de três igrejas, uma católica e duas protestantes, se entendem muito bem, e até se ajudam.

A indústria Eberle, que faz uma boa variedade de motores e máquinas operatrizes e uma infinidade de facas; punhais, espadas e espadins, cunhas e bombas de chimarrão, balangandãs de prata ou de alpaca, é também uma grande fornecedora de material artístico para o culto católico em todo o Brasil. Há uma livraria exclusivamente católica, e a grande riqueza da terra, o vinho, é uma bebida católica por excelência. Visitamos uma cantina junto à cidade, talvez a única de nome não italiano, mas português. Está comprando maquinaria nova, para economizar na mão de obra, e resolveu lotear o terreno, onde tinha seus vinhedos: a cidade se estende, e o preço da terra aqui determina esse negócio.

Descemos a serra de tardinha, voltamos por outro caminho – Farroupilha e Caí – e desta vez comemos alguma poeira na estrada. Mas a boca da noite, na planura, é linda e fresca entre os campos e os plátanos e figueiras do mato que aqui, não sei porque, têm o tronco muito forte e curto e ganham em solidez e doçura de sombra maternal o que perdem em altura e imponência.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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