Uma vez eu estava em uma sala de espera, e entrou um sujeito com uma pasta preta debaixo do braço. Foi atendido por uma empregada e sentou-se para esperar. Alguns minutos depois ergueu os olhos e fixou o globo da lâmpada no teto. O globo caiu e partiu-se no chão.
Conheço um homem que, numa esquina de rua, se queixava da vida: estava com uma urucubaca medonha, só faltava um passarinho lhe cuspir em cima, No mesmo instante levou a mão à cabeça: o que faltava acontecera.
Ambos esses casos são testemunhados. Estou me lembrando hoje deles porque tenho meus motivos. Previno ao leitor que deve meter o polegar entre o indicador e o médio e bater com os nós dos dedos em qualquer objeto de madeira se deseja continuar a ler esta crônica, sem muito risco. Não posso afirmar que eu esteja dando azar. Estou, porém, com uma carga tão forte que, humildemente, sou obrigado a aceitar a hipótese de que posso estar transmitindo alguma coisa, por indução. Não desejo expor minhas desventuras em público e me limitarei aos dois últimos fatos acontecidos nesta sala em que escrevo. O telefone tocou: atendi e ouvi uma notícia extremamente desagradável. Como já não estava me sentindo bem, resolvi não sair de casa. Precisava, entretanto, dar vários telefonemas. Para evitar isso, e com a consciência tranquila, de quem já cumprira sua missão no dia de hoje, o aparelho caiu ao chão e quebrou-se. De alguns anos para cá me tornei, não sei porque, completamente imune à gripe. Estou com uma boa resistência orgânica. Fiz exames minuciosos, por motivo de seguro de vida e ficou patente que todo o Braga, desde o sangue e as unhas até o coração de pomba-rola está em boa forma. Tenho tratado impunemente com os sujeitos mais notoriamente azarentos, sem pegar nada. Sempre zombei dessas coisas. No momento, entretanto, sou obrigado a mudar de ideia. Começando por pequenos sintomas sem importância (perder pequenas quantias, cair no ralo da pia a tampa do creme de barbear, cisco no olho, enguiço da fita da máquina de escrever, fogo no tapete, mosca no copo, etc.), veio crescendo, nos últimos dias uma urucubaca de aspecto grave, com as piores consequências no campo sentimental, financeiro e geral; de ontem para hoje ela assumiu uma forma galopante. Estou fazendo uma lista, para averiguações, de todas as pessoas que tenho encontrado, para ver se consigo localizar a fonte do Mal. Algumas já coloquei de quarentena, mas a Negra prossegue sua marcha de maneira vertiginosa. Se alguma pessoa amiga estranhar meu silêncio, e minha ausência nestes próximos dias, não se aborreça; deve, pelo contrário, me ser grata. Estou pensando em fazer como na religião hindu, e me declarar imundo e intocável até pelo menos o fim desta fase da lua, Adeus. Evitem-me. Isolem-me. Isolem-se.