Canoas e jangadas

Jangadas e jangadeiros, Brasil, circa 1950. Foto de Marcel Gautherot/ Acervo Instituto Moreira Salles.

“Se algum dia vocês forem à minha terra”, recomendou a fortalezense Rachel de Queiroz em 1950, “um espetáculo obrigatório que lhes será oferecido há de ser a chegada das Jangadas”. À tardinha, de volta da lida marítima, as jangadas vinham cortando a rebentação e, de asas recolhidas, uma a uma aportavam na areia da praia, empurradas pelos homens, que logo começavam a contagem dos peixes. O povo deixava as panelas no fogo e ia recolher os pescados frescos. Rachel achava a dinâmica tão simplesmente bonita que sentia vontade de chorar.

Para a meninada da praia, os pescadores pareciam deuses. “Deuses caboclos”, cheirando a maresia, que saltavam de suas jangadas com oferendas. Deuses “atrevidos, rústicos, olímpicos”, capazes de subjugar os perigos da natureza e retornar à terra firme depois de sumir na linha do horizonte. Eram, de certo modo, donos do mundo, embora às vezes não fossem sequer donos de suas próprias jangadas, como fez questão de apontar a cronista, preocupada com a realidade social daquela gente vulnerável.

A Pescaria de Paulo Mendes Campos não se deu em jangada, mas na superfície de uma pedra, onde não havia “o compromisso de um passado” nem a “ansiedade do futuro”. O momento, “espaçoso e vivo”, era a única verdade daqueles pescadores que, para contornar o vento frio, sorviam tragos de coragem na noite de lua imensa.

Preparadas as varas com iscas de camarão, o lance do molinete tinha “a beleza de um apelo”. Nesse momento, em que uma sensação de fuga se materializa, “inicia-se o diálogo entre o homem determinado e a surpresa do mar”. O corpo humano se converge numa “tensão que espreita, deseja e confia”, sem espaço para questões supérfluas, como boletos, amor e morte. Através de uma linha, tudo o que o pescador faz é aguardar uma revelação, pois só mesmo a natureza, só o “milagre físico” pode mitigar “as grandes sedes do espírito”, escreveu o mais filósofo de nossos cronistas.

Retirar o peixe de seu mistério e reduzi-lo ao nosso mundo não é um processo tão distante da jardinagem, de “plantar a semente no jardim, regá-la, ver o arbusto crescer e dar flores”. Destruímos com uma das mãos e criamos com a outra. São os gestos terrenos capazes de nos dar um sentimento, ainda que vago, de alguma resposta palpável e corpórea “às insinuações, às promessas, às grandes ânsias da vida espiritual”.

Certa vez, Rubem Braga, amante da pesca e da caça, acompanhou uma comitiva de pescadores pelos rios e mangues dos entornos de São Vicente, em São Paulo. “Haviam-me prometido pescadas soberbas e robalos deste tamanho, sem exagero; e até espadartes”, antecipou o escritor. Mas ao fim do dia, tudo que o grupo conseguiu pegar foi “uma dúzia de humildes canguás” que “visivelmente se esforçaram” para se prender aos anzóis, talvez por cortesia da casa.

“Se não caçamos mais peixe foi porque na maré de lua nova as águas sobem e descem com fúria demais”, justificou o cronista. Se pudesse, teria ficado mais tempo nas praias paulistas, contemplando a vida real da natureza. Aqueles homens não voltariam para casa de cestos cheios, mas tinham fisgado o principal: “Esse silêncio e essa brisa dos mangues entardecendo, essa garrafa de cachaça que passa de mão em mão”. Eram Pescadores de sossego, em busca da “melancolia altiva”, da “tristeza negra, humilde e longa” que habitava o local.

Em um tronco, Braga viu uma formiguinha vermelha carregar uma folha grande. Caminhava penosa, mas decidida. “Isto é a vida, essa guerra, essa teimosia obscura e feroz de cada dia”, arrematou. Um instinto inexplicável e “sem finalidade além da vida mesma”, que se repete e ressurge em novas gerações de formigas vermelhas e de gente, “tropeçando com os mesmos enganos, a mesma canseira, a mesma ânsia, avançando com a mesma sinistra obstinação”. Descansando o corpo no bojo de uma velha canoa, o cronista tomou mais um gole de cachaça e ali mesmo dormiu largado, “como se fosse para todo o sempre”.