Olhares de Júlia Lopes de Almeida

Rua Primeiro de Março; em destaque o prédio dos Correios, Centro, Rio de Janeiro-RJ, circa 1890. Foto de Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez.  Acervo Instituto Moreira Salles.

O elenco do nosso Portal da Crônica Brasileira recebe hoje um reforço aguardado: Júlia Lopes de Almeida, escritora carioca que participou ativamente da vida cultural do país na transição do século XIX para o XX, é a nova cronista da casa.

Não faz muito tempo que a prosa de Júlia passou a atrair mais olhares. Graças à inclusão de seus romances nas leituras obrigatórias de grandes vestibulares, uma nova geração de leitores teve contato com as obras A falência (na lista da Unicamp desde 2020) e Memórias de Martha (na da USP desde 2026). Quanto ao quinhão que nos interessa mais, suas crônicas foram recompiladas em pelo menos três antologias na última década – Júlia do Rio, a mais recente, foi organizada pela especialista Anna Faedrich em 2024. Deste trabalho, editado pela Bazar do Tempo, saiu a seleta de dez crônicas disponíveis aqui no Portal.

Escritas entre 1908 e 1912, tais crônicas foram publicadas com destaque na primeira página do jornal O Paiz, importante veículo republicano e abolicionista, e conquistaram um lugar privilegiado na esfera social do Rio de Janeiro. Na imprensa, Júlia era uma voz popular, influente e inesperadamente progressista. Isso porque, embora tenha também cumprido os ritos reservados às escritoras da época de versar sobre conselhos maritais e receitas culinárias, ela tratava de política, de administração pública e, com frequência, dirigia-se aos governantes. Com isso, fez-se presente – e incontornável – num território exclusivamente masculino.

A autora lançou olhares para temas cruciais, engajando-se na campanha pelo abolicionismo, e para outros menos óbvios mas ainda hoje relevantes, como a formação precária das polícias, a justiça desigual para os pobres, a falta de acessibilidade e o desarmamento da população. Naturalmente, seu progressismo burguês não a blindou de contradições – algumas de suas percepções, na época amparadas por pseudociências eurocêntricas, hoje soam problemáticas, sobretudo em relação à higienização social e ao racismo.

Independente do assunto, ao passear pela nossa seleta de crônicas, o leitor vai notar que, assim como seus contemporâneos João do Rio e Lima Barreto, Júlia Lopes de Almeida fez da própria cidade uma personagem – não à toa, um observador atento tinha farta oferta de assunto durante a dita Belle Époque carioca. Nesse período, desejosa de ser Paris, a então capital federal viveu um agudo rebuliço urbano, com reformas agressivas que buscavam a modernização a qualquer custo.

Com a imposição da ordem e do progresso, alargaram avenidas, demoliram um morro inteiro e tratoraram cortiços, casarões e moradias populares. Nesse cenário de contrastes pulsantes e transformações contínuas, a crônica de nossa autora teve muito o que falar. Veja, por exemplo, em “A entrada do Rio de Janeiro por terra...”, como ela compara as “casinholas do subúrbio” de sua cidade com a arquitetura de São Paulo, onde as “copas redondas de arvoredos bem escolhidos” davam beleza e ar fresco às ruas.

Para conhecer mais da vida da autora, não deixe de visitar a linha cronológica preparada por Katya de Moraes, editora do Portal, e ler o saboroso perfil de apresentação assinado pela pesquisadora Elizama Almeida. Estão lá alguns detalhes da caminhada de uma escritora ímpar que pôde desfrutar do reconhecimento literário em vida e, com seu dedicado trabalho de manejo de pena, criar os filhos, "publicar mais de 40 livros, comprar uma casa e plantar árvores”.