Uma senhora é bastante gentil para me escrever se queixando de que nem todo dia encontra a minha crônica neste canto do jornal.
“É como se eu tivesse um encontro marcado com um velho amigo, e ele faltasse. É verdade que às vezes você é meio cacete, ou diz coisas que me contrariam, mas ainda assim prefiro que escreva, e me desagrade, a que não escreva…”
Fico sinceramente grato a essa amiga desconhecida; tanto mais que mostra ser amiga das horas boas e das ruins. Há coisa de 22 anos, poucas e pequenas interrupções, faço crônica diária em algum jornal: até hoje não consigo falhar um dia sem sentir um pequeno remorso. Deve ser a velha consciência de meus avós portugueses, honestos cumpridores do dever, que vem apoquentar o neto desorganizado e vadio. Não quero exagerar dizendo que o remorso doa, nem dure muito; apenas incomoda de leve, e passa logo, mesmo sem aspirina; os avós se recolhem às suas obscuras tumbas lusitanas e o neto sai por aí, entregue aos seus bebericos e devaneios noturnos.
Pior que isso é o sentimento, desgraçadamente frequente, de ter escrito uma crônica demasiado fraca ou ruim. Eu mesmo a leio no dia seguinte, para me castigar – o que, afinal de contas, é um jeito de ser solidário com os leitores; e a leio até o fim, com toda a crueldade mental, o que certamente os leitores não fazem – nem mesmo a minha tão bondosa missivista. Vejam que muito o Braga sofre.
E falarei de outros sofrimentos, na esperança de apiedar a leitora que me censura. Um, eu penso que será comum a todos que limitam sua atividade literária a esta coisa, afinal de contas somente paraliterária, que é a crônica de jornal, quando o é. É um sentimento, talvez ilusório, de que se não escrevesse assim às pressas, no dia a dia do jornal poderia escrever melhor – poderia, quem sabe, criar uma verdadeira e decente obra literária, algo de mais orgânico, mais condensado e mais forte que este lero-lero ocasional. Que inveja eu tenho de um conto de Clarice Lispector, de um poema de Joaquim Cardoso ou Dante Milano, para citar apenas gente daqui, e da menos lida! Se eu tivesse dinheiro mandaria fazer edições de autores assim e daria o livro de presente a toda pessoa que me fizesse um elogio que eu sentisse sincero – um gesto de gratidão e de humildade.
Não estou fazendo fita, minha senhora: acredite que nesta fronteira do jornalismo com a literatura a gente sente um certo remorso quando obtém algum êxito. Talvez o cronista possa sentir algum legítimo consolo pensando que, afinal, ele pode ser uma espécie de ponte entre os leitores que o admiram e os autores que ele admira. Lembro-me da vaidade que senti quando uma pessoa me disse ter comprado um livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade por fazer fé em um elogio meu. A meia literatura vale alguma coisa, se ela pode conduzir à boa literatura.
Enfim, minha senhora, cada um faz o que pode, e o que é bom mesmo na vida não é o que se faz, é o que se vive; o que vale na arte é que ela nos ajuda a viver mais intensamente. Ora, pois, vivamos. E como eu vivo de crônicas, pense isto a meu favor quando a minha crônica lhe agradar pouco, ou nada. Muito agradecido.