O Acre tem muitos igarapés de nomes estranhos — o da Judia, o Distração, Arrependido, Caipora, Visionário... E cada seringueiro dá à sua “colocação” um nome que lhe agrada: Oco do Mundo, Bem Cedinho, Certeza, Pode Ser, Quem Sabe.

Cada “colocação” compreende três “estradas” de umas 150 seringueiras cada uma. A vida do “freguês” não mudou nada, e já foi muitas vezes contada. Ele continua a morar em sua casa de paxiúba coberta de palha, a sair de madrugada para percorrer as três picadas na floresta cortando a “madeira”, a fazer depois o mesmo caminho colhendo o leite caído nas latinhas. E depois, no tapiri ao lado do rancho, ele defuma a borracha em forma de bolas. Incumbe ao “patrão” mandar buscar essas bolas, como também trazer à barraca do seringueiro, nos comboios de burro ou em canoas, as mercadorias do barracão. O seringalista paga ao seringueiro 13 cruzeiros o quilo da borracha, e o entrega ao “aviador” (que é quem, durante o tempo das chuvas, lhe fornece o barracão, para receber no tempo da seca) a 22,70. Tudo funciona, portanto, na base do crédito. O “aviador” por sua vez pode depender de um comerciante mais forte ou de um banco. Nessa escala econômica cada elemento explora o que lhe está abaixo. E o seringueiro, que não tem quem explorar, explora a árvore, cortando-a muito acima ou abaixo do que convém. No caso de seringais arrendados é quase fatal ver essas “bandeiras” exageradas que acabam por matar a árvore. A única evolução técnica nestes últimos 30 anos parece ter sido a substituição da antiga machadinha pela faca. É também banal o caso de um seringueiro, dispondo de mais de três estradas, entregar algumas a um outro, a quem fornece tudo e a quem paga a borracha pela metade do preço que recebe do seringalista. Esse trabalho também pode ser pago a dinheiro.

Mas o seringueiro comum não é meeiro nem assalariado: seu ajuste com o dono da terra é feito na base da sua produção de borracha. Solidão, trabalho duro e penoso e miséria continuam a ser as condições de vida mais vulgares do seringueiro. Ele dispõe de terra para plantar algum mantimento e fazer alguma criação, mas é raro que tenha disposição ou tempo para cuidar disso. A caça e a pesca também podem ajudá-lo a viver. Mas o caso comum é o “freguês” dispor, feitas as contas, de um saldo ridículo, ou ficar devendo ao proprietário. Não é possível exigir muita diligência e sabedoria a um homem que é obrigado a um trabalho duro e insalubre, que não tem a mínima garantia nem da posse de seu rancho, que precisa mudar de ofício durante o tempo da cheia e que está sujeito, de mil modos, à exploração e à opressão.

Ora, é desse homem que depende a produção da borracha: ele é, afinal, em toda essa engrenagem do comércio, o único produtor. Nenhuma lei social poderia ampará-lo na solidão da floresta. Sua libertação — e o aumento e barateamento da produção da borracha de que a nossa indústria precisa — só pode vir de transformação da técnica, de uma política de terras que lhe permita poder aspirar a ser proprietário, afinal, do cultivo da seringueira.

Vamos ver, em outra crônica, o que ele pode esperar. É, na verdade, um pobre e estranho homem, com seu borzeguim liso de borracha que ele mesmo fez na forma de pau, sua calça suja e a camisa rasgadas, o jamanxim nas costas, a espingarda a tiracolo, a faca na mão. O esforço desse homem é que tem de ser valorizado em primeiro lugar quando se pretende fazer da borracha uma riqueza estável e não uma aventura intermitente e cruel. 

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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