Vão os laboratórios farmacêuticos destinar 20 por cento de sua produção a uma “cota de cooperação”, em benefício da economia popular – é o que leio nos jornais.
É o brasileiro um grande consumidor de remédios. Todo estrangeiro que chega aqui fica espantado com a facilidade com que qualquer brasileiro toma uma injeção qualquer, sem receita médica, alegando apenas que “deve fazer bem”. A publicidade feita por alguns laboratórios de seus produtos pela imprensa e principalmente pelo rádio é altamente rendosa: mesmo pessoas que não têm nenhum sintoma das doenças que o remédio anunciado se propõe a curar compram a mercadoria. Para muita gente, no Brasil, o remédio é um vício como qualquer outro.
Ora acontece um fato grave, que já foi muitas vezes notado, mas para o qual até agora não se tomou nenhuma providência: toda essa imensa indústria farmacêutica, que apresenta uma espantosa variedade de produtos, não é fiscalizada. Quando um laboratório resolve lançar uma droga nova, manda a amostra às autoridades da Saúde Pública; estas a examinam e aprovam. E acabou-se. Daí para a frente o laboratório pode produzir milhões de vidros daquela droga, que nunca mais será examinada, a não ser que aconteça algum acidente fatal. Vamos supor que esse laboratório seja desonesto e resolva vender simplesmente injeções de água destilada anunciando as mais poderosas vitaminas: milhares de pessoas ficarão tomando séries de injeção de água, furando os braços como patetas, sem que nada aconteça. Nada – a não ser que perdem tempo e dinheiro e arriscam a saúde deixando de ter a medicação de que necessitam.
Essa hipótese que aventuramos não é uma loucura. Várias vezes em que produtos, colhidos ao acaso nas drogarias, foram levados a um laboratório de análises, ficou provado que muitos dentre eles não tinham os elementos que anunciavam em suas fórmulas, ou não os tinham na quantidade apregoada. Em certa época o escândalo foi tão grande que se falou em instituir um laboratório oficial aparelhado para fazer exames periódicos dos produtos oferecidos à venda. Alguns dos laboratórios mais conceituados declararam que achavam a ideia boa, pois assim poderiam provar a excelência de seus preparados. E depois não mais se falou no assunto.
Pelo que escrevi nessa ocasião, fui acusado até de estar procurando desacreditar a indústria brasileira em proveito da estrangeira, como se os exames periódicos reclamados não devessem incluir também os produtos importados.
Mais importante que essa “cota de cooperação” reclamada, me parece a efetivação do projeto de que então se falou. Que pense nisso o novo ministro da educação e saúde – que não vale a pena tantos esforços para livrar o povo de certas doenças quando ele fica à mercê de certos remédios.