Alegrias de ano novo são modos de esconder tristezas de ano velho. Começa um mas o outro morre, enterrando consigo o que teve de bom, — que o mal não se enterra quase nunca, é como o violão do Chico, “o companheiro inseparável”.
E correndo um olhar desapaixonado por este moribundo 1947, veremos que foi um ano a bem dizer como a carne da pá que, se não é boa, não é má. Ano neutro, pois se nada trouxe de especialmente ruim, — nem nova guerra mundial, nem pestes, nem muita fome — também nada trouxe de bom, não confirmou as esperanças velhas nem fez nascer esperanças novas. Antes pelo contrário. Nem segurança de paz, nem reajuste de interesses entre os grandes, nem sombra de tranquilidade para o mundo — nem sequer a certeza de que amanhã ter-se-á o que comer. O mais auspicioso foi a divisão da Índia e a prometida divisão da Palestina — e vêde que estranho mundo este, no qual se considera augúrio de felicidade dividirem-se os homens! Mas já que assim é, assim seja.
No Brasil, que é uma espécie de espelho do mundo, o ano, pode-se dizer muito bem, esteve mais para lá do que para cá. Acabou-se a lua de mel democrática, esgotaram-se os famosos “créditos de confiança”, entramos na dura realidade do segundo ano. Nenhum problema foi resolvido — político, financeiro ou social. Nem Amazonas, nem Paulo Afonso, nem Brasil Central deram o ar da sua graça. Pouca gente viu os trilhos feitos em Volta Redonda, e o petróleo continua a encher apenas as colunas da imprensa. Nem mesmo o drama da água do Distrito Federal foi resolvido — como não o foi o metrô — nem chegou a desenlace a famosa novela do estádio, com o público ainda esperando ansioso como é que vai acabar e se haverá mortes no fim.
Em várias capitais de Estado a novidade maior foi a liquidação dos bondes, sem nada que os substituísse e o racionamento ou mesmo a suspensão da energia elétrica. Voltou o tempo das candeias, e os saudosistas dizem que é muito lindo. A fome nas cidades cresceu, a tuberculose aumentou. Os transportes pioraram — o que em 1946 ninguém supunha que ainda fosse possível, porque em matéria de transporte ruim e pouco, parecia há um ano atrás que já atingíramos o ponto máximo. As casas de aluguel ficaram ainda mais escassas e a Casa Popular continua na Fundação e não houve poderes do céu nem da terra que acabassem com o mercado negro. Diminuíram as liberdades públicas, sendo que a liberdade de reunião e palavra desapareceu de todo. A Conferência de Petrópolis, dela o que de melhor se pode declarar é que nada trouxe de novo — o que talvez seja um precário resultado para tanto movimento. Enfim, poderia ter resultado em mal, como sempre acontece na Europa. Viva, pois, a conferência.
Nem mesmo poderemos dizer que o sol nasceu e se pôs regularmente — pois houve o intervalo do eclipse. Nem também que os poderes do povo têm funcionado regularmente, pois houve o intervalo alagoano.
Mas houve os milagres do Padre Antônio; e afinal a terra ainda é nossa, e nosso tudo o que está dentro dela — os índios e os rios, o ferro de Itabira e o petróleo de Lobato, os diamantes de Goiás e as esmeraldas de Fernão Dias, e as crianças, e os bichos, e tudo que ela tem de bom e que nós amamos, benza-a Deus.