São apenas dez horas da manhã mas não posso trabalhar corretamente porque alguém (seguramente a minha própria mão direita) ligou o rádio, e a Rádio Nacional já começou a falar no jogo Brasil versus México. No momento em que essa crônica for impressa, tudo que eu posso dizer não terá a mínima repercussão, mas que hei de fazer! Estou com a minha honra empenhada em 22 pés e 11 cabeças, na Suíça. Futebol no Brasil é honra: não posso negar minha massa de sangue.
A Nacional iniciou entrevistando o locutor Raul Longas, que se mostrou um temperamento firmemente profético. Disse ele, com uma convicção que confortou minha alma tímida, que o Brasil teria uma vitória in-so-fis-má-vel, ir-re-fu-tá-vel. De quatro a zero, como em 1950. E descreveu os gols como se os tivesse vendo no campo de Genebra. O primeiro seria assim: “Pinga infiltra perigosamente pelo setor canhoto, passa por um, passa por dois, e estende na direita a Julinho, que atira i-na-pe-la-vel-men-te, in-so-fis-ma-vel-men-te, abrindo o marcador.
O segundo gol, sempre segundo Raul Longas, seria de Rodrigues, “de pé direito e não de esquerdo a fim de reabilitar o futebol brasileiro”.
O terceiro gol seria do centroavante Baltazar, naturalmente de cabeça, concluindo uma jogada habilmente armada na direita.
O quarto gol, este, sim, arrasaria com toda a civilização asteca, porque seria feito de bicicleta, por Julinho! Pimba! Pimba! Pimba! Pimba! – disse o locutor. Quatro pimbas que balançariam de maneira in-du-bi-tá-vel o véu da noiva (sic).
Em seguida, um locutor volante transmitiu algumas impressões do povo que já se agitava em torno dos altifalantes (plural certo de alto-falante, mas que nunca me foi dado ver impresso em letra de forma). O sr. Francisco José da Silva, moreno, baixo, pernambucano, com cara de Flamengo, conforme o locutor, e realmente Flamengo, conforme confessou ele próprio, mostrou-se seguro quanto ao resultado final de três a zero, dois de Baltazar e um de Pinga.
Pelo mesmo marcador e pelos mesmos marcadores, manifestou-se um jovem de 16 anos, que confiava no time, embora fosse também Flamengo.
Quebrando a monotonia, entrou pelo microfone uma senhorita Fluminense, como convém às senhoritas. Três a zero também, mas todos os três, a seu ver, de Julinho…
Por fim, encerrando a primeira etapa da reportagem da Rádio Nacional, foi entrevistado pelo telefone, o técnico Gentil Cardoso, do Botafogo: o Brasil deveria ter uma grande vitória porque a seleção fora habilmente preparada. Mas palpite sobre o escore, isso ele não dava não. Disse que em futebol o escore é um mistério.