Antes de partir para Londres, o poeta Stephen Spender esteve na noite de anteontem diante da televisão para uma conversa improvisada.
Um funcionário da Tupi, ao ver entrar o enorme poeta, acompanhado de outros vates nacionais, exclamou em voz baixa, porém, audível, para um colega: “Hoje é que vai ter espetáculo!”
Não obstante essa previsão frascária, o programa se desenrolou bem, ordenado, sem as confusões contumazes das mesas redondas da Televisão Tupi.
Entre as muitas respostas de Stephen Spender às perguntas dos escritores presentes e dos telespectadores, fixamos as seguintes:
Os dois mais importantes poetas ingleses modernos são dois americanos: T. S. Eliot, americano de origem, naturalizado súdito britânico, Auden, inglês de nascimento, naturalizado americano; T. S. Eliot é certamente o maior escritor vivo da língua inglesa e, talvez, o maior poeta vivo do mundo; Auden procurou em poesia fórmulas para exprimir emoções que de outro modo seriam inexprimíveis; tendo visitado Ezra Pound em um asilo de loucos, nos Estados Unidos, viu com satisfação que o ex-propagandista de Mussolini o recebeu como um poeta e um cavalheiro, não obstante as radicais diferenças entre o pensamento político de ambos; Pound, vivendo entre lunáticos, não parece louco, mas, de fato, há em seus poemas mais recentes uma desumanidade manifesta e certa megalomania; gosta da poesia elegíada de Edith Sitwell; Bernard Shaw é o maior prosador inglês de nosso tempo, se não levarmos em conta a prosa (poética) de James Joyce; aconselha a leitura do prefácio da peça Saint Joan para as pessoas que desejam aprender inglês; depois de Saint Joan, Shaw não escreveu mais nada que prestasse, sofrendo de decrepitude também em suas produções literárias; nunca foi realmente comunista de coração; não gosta de Stalin e de comunistas; de todos os depoimentos de The God that Failled, gostou mais da narrativa de Silone, por ter sido este realmente um importante membro do Partido Comunista; perguntado se a Inglaterra estava agora produzindo navios de guerra ou poemas, e se era possível produzir ambos simultaneamente, respondeu que não sabia se o seu país estava realmente fazendo uma coisa ou outra; em sua própria poesia, procurava, antes de mais nada, uma realidade visual; acha a poesia inglesa do século XIX mais importante do que a do século atual; a respeito de religião, pensa que as pessoas religiosas deveriam ficar mais preocupadas com a própria fé do que com as outras que não têm essa qualidade que os crentes julgam ter; admirava em nosso país o grande interesse pela poesia, e a falta de preconceitos raciais.