Chamava-se Oyarzum. Era um chileno enorme, “de imenso rostro” — como dizia Hélio Pellegrino.
Foi há uns dez anos, em Belo Horizonte. Oyarzum lá apareceu com seu amigo Orlando Bontad. Organizavam um álbum misterioso — El Libro General de las Americas — viajavam pelos países, em busca da interferência dos escritores locais e do auxílio dos poderes públicos.
Quando tinham de levar o álbum a algum lugar, contratavam um moleque: à frente ia Bontad, no meio, o moleque, à retaguarda, com um revólver, o grande Oyarzum. Jamais conseguimos compreender o motivo de tantas cautelas.
Eram cordiais e cativantes. Ganharam logo as graças do sr. Benedito Valadares, descobrindo, e dizendo-o ao então governador que o rosto dele se parecia com o mapa de Minas Gerais. O chefe do governo mineiro foi ao espelho, viu que era verdade, e ficou tocado de orgulho cívico.
Às vezes, Oyarzum e Bontad se desentendiam. Fechavam-se no quarto do hotel até que se amassarem a murros reciprocamente. Findo o pugilato, tornavam às boas pazes — e em nome do álbum. O álbum era um ideal místico, um objeto sagrado.
Gostavam de cachaça e de circo. Foram às funções, de um circo muito ordinário, todas as noites que passaram em Belo Horizonte. Ficaram íntimos do palhaço, com quem costumavam cear depois do espetáculo.
Falavam de cidades do mundo inteiro como quem nomeia as ruas de seu bairro. Contavam histórias e mais histórias, fabulosas.
Possuíam o sentimento agudo de uma certa irmandade que há na terra: a dos sujeitos impraticáveis ao egoísmo do dinheiro, dos líricos, dos vagabundos, das crianças, dos loucos, dos passionais. “Nosotros somos la sal de la tierra” — dizia-nos Oyarzum com a gravidade extrema de um filósofo confiando em uma fórmula sua sabedoria.
Professavam um socialismo difuso e odiavam espalhafatosamente o capitalismo. Fizeram uma esbórnia em um cabaré mineiro por causa de um grupo de americanos, desses trêfegos e bulhentos que apareciam aqui durante a guerra. Um deles dissera a Oyarzum: “Pode beber que nós paramos”. Oyarzum se enfureceu, fechou o tempo, e gritava-lhe insultos em castelhano. “Speak in English”, diziam os americanos. “I will not sneak in English” — gritava o chileno —“I will speak in my own Language”. E bradava com um vozeirão de basco: “A mi no me gusta la compañia de los americanos”. Armado de uma garrafa de cerveja, ameaçava o mais afoito dos ianques: “Mira, muchacho, yo le doy un botellazo definitivo en la cabeza”.
Estava de azar àquela noite. Uma prostituta, a quem mais tarde, no bar, ele pagou champanhe e contou o incidente, ficou bêbada e falou que ele era um quinta-coluna. Oyarzum a expulsou da mesa e exclamava desesperado e com raiva:
— Yo, quinta-coluna! Yo!
Bontad era silencioso e preocupado com as transações comerciais do mundo. “En el Chile, hay una bebida que se llama el pisco. — En los Estados Unidos, un traje custa cien dólares”.
Oyarzum era inteligente, espantoso, intuitivo, e conhecia as grandes literaturas universais. Seu irmão, que tinha morrido tragicamente, era autor de um único poema — “El Barco Amarillo” — que foi de grande influência na renovação poética do Chile. Ele próprio — não acreditávamos — tinha sido amigo de infância e de mocidade de Pablo Neruda. Contava aventuras desse tempo, incríveis. Estava sempre com a mala cheia de edições de Residencia en la Tierra. Gostava de recitar com voz patética, cava e romântica o poema “Alberto Rojas Jimenez viene volando”:
Entre plumas que asustan, entre noches,
Entre magnolias, entre telegramas,
Entre el viento del Sur y el Oeste marino,
Vienes volando.
Dois anos mais tarde, conheci Pablo Neruda aqui no Rio. Comecei a falar-lhe sobre Oyarzum. “Meu grande amigo” — disse o poeta. Então, tentei sondá-lo para verificar a autenticidade daquelas aventuras fantásticas em Santiago e Valparaíso. “Ele contava coisas impressionantes da turma de vocês no Chile…” Neruda não me deixou prosseguir. Pôs a mão em meu ombro e disse-me com uma expressão profunda e astuta nos olhos: “Todo es verdad…”