A moça americana me pediu para lhe apresentar um índio. Está adorando a Eco-92, mas quer bater um papo informal com um brasileiro autóctone. E essa agora? Nunca jamais tive na minha agenda o telefone de um índio. Uma vez, na Universidade de Lovaina (Lovaina é Louvain), me perguntaram quantos índios havia no Brasil. Me lembro bem do meu vexame. Engoli em seco e não soube dizer. Naquela época a ecologia não estava na moda.

E um grande número de índios não tinha dado ainda o ar de sua graça. A gente sabia no máximo o que diziam as reportagens do David Nasser e do Jean Manzon. Uns xavantes atirando flechas no avião. Aquilo fazia parte do elenco de extravagâncias do Chateaubriand. Um pioneiro também nisso. Humilhado, fui procurar um padre belga que tinha sido missionário no Brasil. Anos e anos metido no mato, entre silvícolas. Ele sorriu manso e também não sabia. Ninguém sabe, sussurrou.

Peguei o pião na unha e escrevi ao IBGE. Eu vivia na Europa e tinha a santa ingenuidade de supor que alguém aqui tinha o hábito já não digo da correspondência, mas ao menos de, perguntado, responder. Hoje não tenho dúvida de que o IBGE também não sabia. E se soubesse, não respondia.

Não cometo a temerária provocação de perguntar se agora sabe. Mas voltando à moça americana. Nunca pensei que um dia fosse ter vergonha de não ter um índio entre as pessoas das minhas relações. Uma falha a esta altura difícil de sanar.

E a moça insistia. Serve aculturado, disse ela. Já me soava como desaforo. Ela que fosse procurar os netos do Touro Sentado. O Sitting Bull, aquele famoso chefe sioux, cuja tribo foi massacrada pelos seus compatriotas. Lá em Minas, onde nasci, só vi índio no cinema. E cinema americano. Por que não ia à aldeia Karioka, no Riocentro? São índios autênticos, numa casa genuína. Pois tinha ido. Não entendi bem por que, não pode fotografar.

E há índios, me contou, que estão cobrando para tirar retrato. Preço de modelo. Tem até tabela. Cada foto é tanto. Close é mais caro. Copyright, disse um deles em bom inglês. Verdadeira poluição capitalista. Espevitada, bonitinha, antes de se despedir, a americana pediu para me fotografar. Cem dólares, disse eu. Ela arregalou os olhos e começou a rir. Riu gostoso, cascata de pérolas. Aí, pensei cá comigo: puxa, como o riso consegue ser ecológico! Desanuviado, o ar ficou leve, puro.

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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