Periódico
Folha de S.Paulo

Publicada no livro Bom dia para nascer, Companhia da Letras, 2011.

Está um calor de derreter os untos, como diria o Eça de Queiroz. Sem jamais ter estado no Brasil, sua experiência de calor era mesmo de Lisboa. Pois lá também faz calor, como faz em Nova York e em Paris. Bom, o Eça foi cônsul em Havana, Cuba, e lá o verão, como aqui, derrete os untos. Só que no Rio o calor é especial. Sendo escaldante e úmido, dura meses, mas traz à cidade uma espécie de euforia. Isto é o que pensa e sustenta o carioca da gema.

Neste ponto me vejo na obrigação de confessar que estou longe de ser um carioca 100%. Um calor de matar passarinho e de fritar ovo no asfalto não me seduz. É o que faz agora. O pior é que podem vir por aí aqueles temporais cada vez mais catastróficos, na medida que a cidade cria obstáculos ao escoamento das águas. Pois também diante disto há cariocas que se sentem à vontade e até se divertem. Ignoram a calamidade que agride mortalmente os morros e a periferia da cidade.

Sim, há sempre o respiradouro da praia. Mas não é todo mundo que pode todo dia dar o seu mergulho ou lá permanecer na areia horas a fio (dental, ou não) no bem-bom da vadiagem. O fato é que nem a praia é alívio, sobretudo depois que, ainda cedo, o sol estende sobre tudo e sobre todos a sua chapa impiedosa de assar e de torrar. Aí, o jeito é procurar uma sombra, se o cara não tem o privilégio do ar refrigerado (de preferência pago pelo governo). A brisa, ai de nós, foi praticamente expulsa da cidade.

Quando Pereira Passos abriu a avenida Central, hoje Rio Branco, teve o cuidado de deixar livre o caminho da brisa. Soprava da praça Mauá para a praia de Santa Luzia, depois aterrada. Ou vice-versa? O fato é que soprava, na mão e na contramão. A rua estreitinha, aprendida com os árabes, via Portugal, sempre foi também um recurso contra o calorão infernal, ou senegalesco. Uma injúria ao Senegal e quem sabe até ao inferno. Em Dacar não há av. Presidente Vargas.

Dizia o Murilo Mendes que o inferno existe, mas não funciona. Deus que me perdoe, mas há horas em que isto parece definição do Rio. Nada de pessimismo, porém. Se o carioca curte o verão, é porque há no verão o que curtir. O calor convida ao riso e à folga. Ao lazer, em suma, numa sociedade que cancelou a disponibilidade de espírito. Nada de bom se faz sem o lazer, dizia o Gide. Mas há gente que detesta citação, muito mais do que abomina o calor. Uf!

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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