Enigma, desafio, feixe de controvérsias — a interrogação o acompanha no esquife. Ambíguo, dividido, louco e lúcido. Possesso, todo ambição de poder, teve o que quis. Tinha absoluta certeza de sua predestinação. E tinha pressa. Tendo corrido um risco desnecessário e (mal) calculado, voltou a perseguir o poder, sempre pelo voto. A derrota não estava no seu roteiro. Mas nem por isso lhe quebrou a espinha.
Dado em espetáculo até na agonia e na morte, conquistada a presidência da república, que aflitiva personagem continuou a interpretar? De ponta a ponta, uma linha de coerência dirige o ator que de um golpe ocupou a cena brasileira. Candidato a prefeito, só conhecido em São Paulo, sua voz no rádio me chamou a atenção. Mordaz, desafiava o poder estabelecido. A forma, peculiaríssima, passava à margem da modernização cultural.
De volta ao Rio, escrevi-lhe uma caudalosa carta para dizer o que Sana Khan lhe teria dito em duas palavras. João Cabral leu minha carta, riu e achou que eu estava ficando maluco. Hélio Pellegrino me tomou o pulso. Eu tinha entrado numa onda de delírio. Pouco tempo depois, vi-o em São Paulo. Desconfio que da minha carta só leu, sublinhada, a fácil “profecia”.
Que sonho trazia no coração aquele rapaz estranho? Escondido por trás do histrionismo que divulgou sua marca, que esperava do destino? E que destino nos queria impor a todos? Por que a altiva certeza de que era um guia? Penso no desdém meio ressentido com que encarava a arrogância dos que a princípio o ignoravam. O patinho feio se sabia um cisne. Esperava, impaciente, a sua hora. Gostava de alguém? A alguém odiava? Solitário, sempre agarrado à pequena e conflituosa constelação familiar — pai, mãe, filha. E a mulher Eloá.
Forte na adversidade, que motor movia esse encantador de serpentes? Vi-o no poder e fora do poder. Em público e em particular. No Brasil e fora do Brasil. A renúncia me chegou como um alívio. Pôs fim à batalha, com a (quase) irresistível ajuda do José Aparecido, para me encarcerar no Palácio. Seu poder de sedução não vinha só do poder. Pedia e dispensava a sanção alheia. Vitorioso, mas derrotado, êxito e fracasso se misturam. A dimensão histórica mais o protegia do que o expunha. Até onde terá sido uma aventura pessoal de poder? Na sua máscara mortuária pousa um silêncio que trazia do berço. Até agora inviolável.