Se há uma coisa boa de ler, é carta. A correspondência do Flaubert é bem capaz de ter mais leitores do que os seus romances, mesmo obras-primas como Madame Bovary e L’Education Sentimentale. Ou, menor só no tamanho, Un coeur simple, que é páreo para A morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. Quem escreve um texto assim pode morrer feliz no ponto final. Claro, o interesse das cartas do Flaubert está ligado à sua ficção.

Não é de hoje essa mania de publicar a correspondência ativa e passiva dos escritores. Você já viu o volume de cartas do Shaw? Gide deixou uma infinidade de cartas. O ficcionista anda meio esquecido. Seu livro mais lido hoje é o Journal, que tem, como as cartas, ou mais do que elas, o irresistível sabor da fofoca. Claudel escreveu cartas torrenciais. Retóricas, embora, às vezes antipáticas ou egocêntricas, são lisíveis ainda hoje.

Entre nós, o grande epistológrafo foi Mário de Andrade. Mário morreu de cansaço. Trabalhou como um louco num país que tem fama de preguiçoso. Quem no mundo escreveu mais e melhor do que Machado de Assis? Pois apareceu aí um brasilianista pra dizer que por causa do clima o intelectual no Rio é pouco dado ao trabalho. Apanhado de surpresa pela morte, Mário deixou instruções sobre a divulgação de sua correspondência. Ao sol, carta é farol –  escreveu ao Guilherme Figueiredo, que foi dos últimos a divulgar as cartas que recebeu do Mário.

O primeiro infiel foi o Manuel Bandeira. Explicou-se bem e, a partir daí, veio o caudal epistolar que se sabe. Agora está na moda divulgar tudo que seja manuscrito de escritor. Carlos Drummond de Andrade ficava uma fera quando alguém dava à publicidade uma carta sua, às vezes com uma simples eutrapelia. Chegou a cortar relações com um poeta por causa do que considerou imperdoável indiscrição. Se a lei não mudou, o destinatário pode divulgar a carta, mas com prévia licença do autor ou de seus herdeiros.

Capistrano de Abreu deixou uma volumosa correspondência, que José Honório Rodrigues anotou. Em 1928, Vianna do Castelo era ministro da Justiça e sabiamente mandou excluir da consulta pública as cartas do Capistrano, que na intimidade se abria com irreverência mordaz. Não poupava ninguém. Era muito cedo para divulgá-las. O que me pergunto é se é lícito permitir o acesso imediato e generalizado à correspondência íntima de mortos que em vida foram pudicos e recatados. Eu acho que não. É falta de respeito e de educação.

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As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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