Não podia ser mais oportuno esse centenário que vem aí, no dia 27 de outubro. Faz cem anos que nasceu o Graciliano Ramos. O Congresso votou uma lei, que o presidente sancionou, criando o Ano Graciliano Ramos da Cultura. Nada mais justo. Graciliano é hoje um clássico. A sua obra sozinha é capaz de dar uma boa notícia do Brasil, em particular do Nordeste. E de Alagoas, em particularíssimo lugar.
A terra do Graciliano, do Jorge de Lima, do Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. E de tanta gente mais, glória da cultura brasileira. Da cultura e da vida pública também. Graciliano, por exemplo. Foi prefeito de Palmeira dos Índios. Severíssimo. O seu famoso relatório denunciou no Rio a existência de um escritor de raça. Intuitivo, o Schmidt telegrafou pedindo o romance engavetado. Era Cahetés, assim mesmo com “h”. Saiu com capa de Santa Rosa e dedicado ao Jorge Amado, ao lado de Alberto Passos Guimarães.
Jorge de Lima, por sua vez, só não conseguiu se eleger para a Academia Brasileira. De Letras! Ficou mal para o grande poeta? Claro que não. Candidato seis vezes, seis vezes foi derrotado. O poeta de “O acendedor de lampiões”, de “Essa nega fulô” e de Invenção de Orfeu! Médico, Jorge tinha consultório ali na Cinelândia, em cima do café Amarelinho. Mal saía o sol, lá estava atendendo os clientes. Cobrava uma ninharia, ou não cobrava.
Não espanta que, médico dos taxistas, tenha sido eleito vereador à Câmara Municipal do Rio. Seu jeito lhano elevou-o à presidência da Casa. Era um expoente da poesia, naquela paisagem nem sempre poética. Sua carreira de homem público não foi além de vereador. Nem por isto deixou de legar um exemplo de dignidade. Como exemplo de estrita honradez legou o Graciliano, com a sua passagem pela prefeitura e pelo Departamento de Instrução de Alagoas.
Sobrevindo a caça às bruxas, o velho Graça enfrentou com bravura a adversidade. Foi preso, trazido para a Ilha Grande, como contou nas Memórias do cárcere. Nunca que se rebaixaria ao papel daquela onça que aparece num dos seus contos. Misturou-se com o gado no curral, a onça. E entristeceu, perdeu o apetite. Ninguém tinha medo dela. Andava pelo pátio, banzeira, com o rabo entre as pernas, o focinho no chão. E finou-se no chiqueiro, junto com o bode velho. Viveu pouco, coitada.