Ninguém dá nada por ela. Quem vê cara não vê coração. Mas traz no rosto, no corpo, no jeito, uma flama que crepita. Basta uma palavra e se acende. Sabe ouvir e sabe falar. As palavras exatas. Não come, nem mastiga uma única sílaba. Nunca frequentou fonoaudióloga. Nem cogita de califasia. Tudo nela é natural. Espontâneo. Brota de um segredo bem guardado. Escusa dizer. Vai com ela, onde ela vai.

Professorinha municipal, de óculos como convém. E franzina. Tem charme, mas não o expõe. Antes, esconde o que pode desviá-la do dever. Sua missão. Desde mocinha, quando sentiu aquele desassossego. Viu claro o caminho. Mais que promessa, era a certeza do seu destino. Já passa dos 30 e tem 12 anos de magistério. Viúva, aposentada, a mãe lastima que, tão inteligente, não seja ambiciosa. Ainda hoje, cedinho, a mãe plangia.

Primeiro um estirão a pé. Depois o ônibus. Mil riscos, a mãe adverte. Ela, porém, não vê risco nenhum. Vê a escola. Os diabretes que tem de desasnar. No caminho, a banca de jornais. Queria esquecer. Precisava que nada disso acontecesse. Há uns 15 dias, a mãe colada à novela das oito, ainda parecia duvidoso. Impossível não ver e ouvir. Toda aquela sujeira. Na televisão. E também nos jornais, nas revistas. E nas conversas. Como foi possível?

Na classe, de relance vê a cara coletiva da privação. Há alguns anos, dizem, os meninos eram, aqui, na maioria, de classe média. A favela tão perto, baixou o padrão. Dá pena ver tanta penúria. Uns já taludos, a todos quer bem. Vê em bloco, de montão, e se comove. Os brasileirinhos. O Brasil de amanhã. Acredita no que diz. Sua convicção vem de dentro, veemente. Nem precisa a diretora repetir. Ou a orientadora recomendar.

Num jorro de sinceridade, se empenha. Não só instruir, mas educar. Digam o que disserem, Moral e Cívica também. Aí se lembra do noticiário. Tem perdido o sono, a professorinha. Será possível? Uma pouca-vergonha, disse um sujeito com ódio, na banca de jornais. O ar abafado, até os alunos andam excitados. Santo Deus, será verdade? O Brasil não merece isto. À noite, exausta como nunca, fecha a porta do quarto. E abre a boca a chorar.

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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