O saudoso filósofo do futebol, Neném Prancha, criou um punhado de máximas que, à sabedoria universal, acrescentavam sempre uma pitada do melhor espírito carioca. Num desses momentos de gênio, que, como todo gênio, não está de todo preso à lógica aristotélica, o mestre Prancha declarou que os jogadores burros não devem treinar. E explicou: se treinam, ficam mais burros.
Ao ouvir falar em Neném Prancha, a meninada de hoje tenderá a associar o seu nome ao surfe. No tempo do filósofo Neném, se o surfe já tinha sido inventado, ainda não tinha, porém, chegado às nossas praias. A palavra prancha tem aqui o sentido de pé grande, de lancha, como também se diz. Nem por ter pés grandes, Neném deixava de ter cabeça. E cabeça que funcionava. Com um olho no jogo e o outro na vida, sabia pensar.
A regra de ouro da burrice que não deve treinar, se posta em prática, poderia ajudar o Brasil em vários setores. É sabido que temos aqui o fetiche do diploma, ou do canudo. Um burro laureado consegue fácil esconder a própria burrice e com empáfia ostenta láureas e títulos. Fica parecido com o burro de Lafontaine, que, de relíquias carregado, hinos e incensos como seus tomava.
Na fábula, o burro marcha soberbo diante da multidão. Na vida real, a autoconfiança diplomada funciona como combustível para a burrice. Indo mais longe, e às vezes com a admiração e o aplauso dos circunstantes, o estrago que o burro faz é muito maior. Basta olhar em torno para verificar que há um monte de maus jogadores treinando. Estão apurando os defeitos, para errar com mais eficiência. Apanhados em flagrante, insistem em continuar com o jogo. São teimosos como o asno, que aliás é um animal sabidamente perspicaz.
Com a entrada do Brasil na idade industrial, a burrice ganhou uma aliada poderosa, que é a tecnologia. Basta ver, por exemplo, as filas promovidas pela Caixa Econômica Federal, ou pela Previdência. Sem a ajuda do computador, só com a multidão dos infelizes, não seria possível tamanha perfeição na estupidez. O leão do imposto de renda é outro que ruge, ou zurra, com as quatro patas apoiadas na tecnologia. O mensalão, por exemplo, pede medalha de ouro internacional. De burrice.