Em volume encorpado, mas gracioso, a José Olímpio reuniu os Quatro romances de Rachel de Queiroz: O quinze, João Miguel, Caminho de pedras e As três Marias; gosto da literatura de Rachel, gosto da personalidade de Rachel, só não gosto sempre das conclusões políticas de Rachel; pessoalmente, só nos encontramos uma vez, e a achei tão simpática e amável como diziam; mas talvez o que mais me fraternize com a romancista é ela ter escrito em crônica que invejava as pessoas que morriam; eu tinha dito exatamente a mesma coisa, numa explosão de sinceridade, meia hora antes de comprar O Cruzeiro. Levei um susto bárbaro, sobretudo porque a motivação da minha afirmativa e a da crônica de Rachel eram a mesma: a morte do nosso bom Santa Rosa.
Rachel gosta da vida; eu gosto da vida. Como duas pessoas que gostam da vida podem sentir inveja daqueles que morrem? Deixem isso pra lá, que nós nos entendemos. Sei que daí por diante, embora não mais a visse, comecei a entendê-la melhor e me coloquei, à sua revelia, entre os seus amigos.
A amizade literária vem de longe, vem de minha adolescência, quando li com alvoroço Caminho de pedras e As três Marias. Vem ainda, e talvez mais, das humaníssimas e bem escritíssimas crônicas que ela publicava, aí por volta de 1943, no suplemento do Diário de Notícias, crônicas que eu esperava com ansiedade, que recortava para ler junto com uma namorada ao mesmo tempo patética e realista, como Rachel e como eu penso que sou. Rachel, essa moça, que seguiu com dignidade o seu caminho de pedras, e eu somos parecidos. Gostamos da vida e invejamos os mortos, sem romantismo fácil, com absoluta lucidez, se nos permitem essa trágica pretensão.
Não ia escrever essa confissão absurda e desagradável quando meti o papel na máquina. Agora, como Pilatos, o que escrevi está escrito. E mando a Rachel, vulgarmente, formalmente, os meus votos de feliz Natal e próspero Ano Novo. Ela entenderá.