Periódico
Diário Carioca

coluna: Primeiro Plano

O autor abordou o assunto na crônica "Hoje conto um caso..." (título atribuído) da coluna Primeiro Plano, do Diário Carioca, de 16/09/1952.

Diante da lagoa eu nada tinha a fazer, nem pensar, nem sofrer. Domingo. Reconhecia as coisas. A cor da água, olho baço, a cor da relva, do eucalipto, a cor do firmamento, líquido azul. Estava sentado com os olhos abertos num banco de pedra.

Se um pardal esvoaçava, virava o rosto para vê-lo e amá-lo melhor. Acompanhava a marcha comercial das formigas. Sorria às crianças que passavam com amas pretas vestidas de branco.

Um peixe resvalou à flor da água: um raio de sol desceu e feriu o dorso do animal, o reflexo veio em linha reta até mim, que inventei a teoria dos triângulos. Há triângulos radiosos em todos os espaços. Sol, peixe, homem. Porque nunca ninguém está só diante duma coisa, existindo sempre a testemunha que participa do nosso oaristo e completa o nosso diálogo.

É bom que o homem, vez por outra, deixe o litoral misterioso para contemplar uma lagoa. O mar resiste à nossa sede com o sal profundo. Sim, são estranhas as palavras do mar, hipocampo, sargaço, calmaria, oceanus. Mas uma lagoa, muda e fechada compreende as pequeninas desventuras. Nenhum poeta seria bobo a tal ponto de escrever à lagoa uma epopeia, uma saga. Nela podemos apenas esquecer nossos naufrágios.

Do lugar em que estava, o Cristo se erguia de perfil. As montanhas formam um alcantilado que os aviões de São Paulo cruzam com elegância moderna. Amo essas montanhas uma a uma.

O domingo se aquietara quando passou zunindo um automóvel vermelho. O ar continha cubos translúcidos e dentro deles revoavam urubus. São as aves mais feias do céu, mas de um voo alçado e tranquilo.

Um barco a vela seguia o caminho invisível do vento. Depois, outros barcos, todos brancos e silenciosos. O sol ia acabando. Levantei-me e andei. Como Lázaro. Pensando: há domingos que cheiram a claustros brunidos pela paciência dos noviços. Mas aquele tinha o perfume do outono.

paulo-mendes-campos
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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