Fonte: 1º Caderno, coluna Rodízio, Jornal do Brasil, de 22/08/1958.
Há uma vitrina no centro da cidade e nessa vitrina não se exibe nada que você deva comprar. Nela você não vê, como num trono, uma geladeira oferecida a suaves prestações. Nem um aparelho de televisão; nem um piano desses que as adolescentes castigam durante algum tempo e depois abandonam por não terem talento…
Nessa vitrina se exibe uma límpida água que escorre sobre seixos.
Quando anoitece e saio do trabalho, vou esperar condução perto dessa fonte artificial. E eis a água, escorrendo feito trança nas pedras lisas.
O dono da loja vende aparelhos elétricos e é, sem dúvida, um homem inteligente. Sabe que ninguém se recusa a contemplar a água. Podemos fechar os olhos se nos oferecem uma geladeira, um paletó de tropical, um liquidificador; é inclusive salutar que fechemos os olhos diante de tantos objetos tentadores, pois do contrário acabaremos com a casa cheia de máquinas, o guarda-roupa cheio de ternos, o orçamento cheio de rombos e o coração.. e o coração vazio! (Aliás, como sempre). Portanto é bom fechar os olhos e resistir às miragens da civilização. Mas quem se daria ao luxo de fechar os olhos para não ver esse claro lenço de água que escorrega em seixos disposto como degraus?
Todo dia vou ver a água. Tornei-me amigo da água. A vitrina me fala de perdidas fontes, de humildes córregos que, desde que o mundo existe, deslizam serenos e limpos entre arbustos sempre viçosos. A vitrina me diz: “Em vossas cidades, homens, estais cada vez mais longe desses riachos e, não obstante, eles continuam a brilhar como um punhal sob o mesmo velho sol — o velho, adorável, calado, brilhante sol!”
Fico olhando a vitrina e tenho vontade de ir-me embora para o oeste, para as fontes que emergem nas regiões pedregosas, para as frondosas árvores (frondosa — ó palavra ampla como a sombra que te escondeste no fundo da memória humana!), para as noites profundamente enluaradas das quais os vagalumes são constelações caídas... Sim, o oeste, as noites, as rãs e os grilos, e sobretudo as árvores frondosas que vendemos em nosso primeiro livro.