“Doença da meia idade” – disse o médico, sem me prestar atenção. “Menos mal” – pensei eu. Afinal de contas é confortável a gente ter suas doenças na época devida; infeliz o que fica senil aos 20 ou tem caxumba aos 40; e estas reflexões me deram a impressão meiga e parva de que, neste andar, eu vou morrer no fim da vida, e não no meio.
Em face do que, enfrentei minha bursite com certa paciência. Consumi injeções e comprimidos, posei para o projetor de radioterapia e apenas refuguei um senhor que pretendia me engessar e outro que queria me injetar algo no local, entre ossos. Algumas amigas e caridosas me recomendaram pelo telefone, os mais variados remédios que, em tais e tais casos, foram batatais; não tomei nenhum deles, mas fiquei comovido.
A dor divertiu-se muito comigo. Estabeleceu-se no pescoço, passou para a espalda, raivou aguda no antebraço, saltou para o pulso, foi até a articulação dos dedos; quando retrocedeu para o cotovelo e ali se fixou, aguda e súbita, eu pedi que ela se mudasse; assim deixava de ser dor para ser pleonasmo ou redundância – “de dor de cotovelo ando eu cheio, irmã; você doer aí é chover no molhado, antes melhor fora que doer fosses no cotovelo daquela ingrata”.
Recomendaram-me um exercício rotativo que fez sarar um fiscal da Prefeitura e mais algo chamado ionização que curou um senhor do comércio; um amigo de São Paulo me telefonou para dizer, com certa superioridade, que tivera bursite dos dois lados e não apenas do lado direito, como eu; uma boa amiga de Nova York me enviou a última droga americana. Aprendi muitos nomes começados ou acabados por “cortons”, “butos” e “pirins”; usei bálsamos; uma senhorita de sociedade comunicou-me que um médico do futebol lhe dera uma ampola que se devia quebrar no local e esfregar devagar na pele, depois de a arranhar (a pele) com uma agulha (acho que se pode também usar gato ou mulher) mas só senti alívio concreto, apesar de precário, foi com a prática de proferir, de dez em dez minutos, um grosso palavrão de língua portuguesa (experimentei outras, sem resultado, mas dizem que há um palavrão búlgaro que é formidável) e confesso que também tenho gemido com um certo afã. Antônio Maria naturalmente me explicou que a bursite é produzida pelo erro de cortar as unhas do pé em dia de ponto facultativo e outra pessoa me perguntou se eu não abusara de comunhões durante o Congresso Eucarístico e uma terceira acusou meu hábito de andar encurvado – “sim, mas a dura cerviz, obtemperei, jamais a dobrou um Braga diante de poderoso nenhum”.
Com tudo isso perderam os leitores, durante vários dias, páginas de palpitante jornalismo e fina fatura literária; perdeu a coisa pública a atenção de um aplicado burocrata, e eu perdi o avião. Vende-se um saldo de bursite, já bastante usada, mas ainda com bastante força, etc., etc.