Nome bonito de cidade: La Serena. Pois é uma cidade grande, perto do mar, capital de toda uma região do Chile, o Norte Pequeno. Uma reunião dos pequenos mineradores de cobre nos leva a La Serena; o auto às vezes roda uma hora inteira por uma estrada aberta no deserto, perto do mar, onde quase apenas há cactos e pedras. Fazemos uma incursão para leste, subimos mais de mil metros de montanha, e a paisagem é desolada e solene; lá no alto vamos encontrar uma cidadezinha onde se venera a Virgem de Andacollo; sua festa anual dizem que é um estranho e faustoso balé onde os ritos católicos se misturam às lembranças de índios. É uma santa altamente milagrosa e às vezes também temperamental; por toda parte, em volta da cidade, há escavações que são pequenas minerações de ouro. Mas aqui passam dois, três anos sem chover e não há água para lavar o ouro. A riqueza mais explorável de Andacollo ainda é o manganês. Encontramos na estrada pedregosa os caminhões que descem com o minério. Em cantos de serra, de longe em longe, há uma casinha com uma família de pastores de cabras; a casa e as cercas são de pedra, na paisagem mineral.

Mas o Norte Pequeno não é só deserto. Um rio desce dos Andes, consegue atravessar a faixa de terra até o mar sem se deixar absorver; todo seu vale é um poema de verduras, as frutas são imensas e doces, as vacas são gordas, a gente é feliz. Assim o vale de Elqui, úmido e atopetado de vegetação – “uma axila”, comparou a velha Gabriela Mistral, que nasceu aqui. Uma noite não sabíamos onde dormir, estávamos numa praiazinha sem conforto. Olhei o mapa e li “Ovalle”. Tocamos para lá em homenagem ao poeta e compositor Jayme Ovalle. Uma cidade muito limpa, uma praça muito bonita, um hotel confortável. Duas grandes represas no alto das montanhas garantem a irrigação dos vales imensos; Ovalle é uma cidade próspera, burguesa, católica, cheia de sinos. Assim também La Serena, a cidade dos sinos e carrilhões e das imensas escolas modelares, e da alameda coalhada de estátuas. Dezenas de cópias de estátuas gregas e romanas e também uma dúzia de estátuas modernas; não creio que em parte alguma do mundo existam mais esculturas por habitante que em La Serena.

Aqui a lavoura se associa à mineração. Esses pequenos mineradores de cobre são homens independentes, exigentes, uma classe média muito ciosa de seus direitos; e são quase sempre chilenos, ao passo que as grandes minas são de americanos. É do porto de Coquimbo, aqui junto, que vai muito cobre para o Brasil; em compensação aqui, como em todo o Chile, se consome exclusivamente café brasileiro, e a marca das mais consumidas em La Serena parece ser “Café Paulista” – que, de resto, deve ser aquele duro tipo 7 de Vitória…

Comemos mariscos fabulosos; em país nenhum do mundo nenhum mar oferece ao homem tantas e tão variadas coisas de comer. Imagino que seria possível transplantar para os mares mais frios do sul do Brasil alguns desses mariscos estranhos e carnudos do Pacífico Sul; imagino também levar para o Brasil, país das mil palmeiras, essa palmeira estranha que produz mel, um mel meio ralo e suave que se come com panquecas ou com maçã crua. Imagino também coisas menos comestíveis: todos os sinos de La Serena estão batendo no crepúsculo, há meia lua de prata entre as montanhas e o mar. 

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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