Escrevo no momento em que está sendo enterrado, em S. Paulo, o escritor Oswald de Andrade. Tomo conhecimento ao mesmo tempo de sua morte e de sua última crônica; nesta ele sugeria ao governo, entre outras coisas, a minha nomeação para embaixador em Paris…
Não creio que o presidente Café Filho tenha achado a ideia magnífica, o ministro Raul Fernandes tenha batido na testa dizendo: ⏤ “é mesmo!”, e os senhores senadores tenham ficado contentíssimos. Mas a ideia era típica de Oswald de Andrade, que nunca foi, como dizia a tia-avó de minha amiga Lígia de pessoas irrequietas e fora do comum ⏤ “autor muito seguido”. De resto muitas coisas que ele dizia não eram para ser aceitas ao pé da letra, nem mesmo para serem levadas a sério; e quando por acaso enunciava uma simples e claríssima verdade, ele despertava um certo pânico. Foi assim na dramática reunião dos fazendeiros de café em S. Paulo (ele era um) no momento mais feio da crise provocada pelo crack da bolsa de Nova York de 1929. quando ele resumiu a situação com um “estamos encalacrados” que provocou urros e uivos de protesto porque exprimia singelamente o fato.
Duas vezes Oswald me surpreendeu pela sua previsão das coisas. Uma vez chegou da França ⏤ no começo da guerra, naquela fase da drôle de guerre e disse tranquilamente: “a França está minada e está podre; de um momento para o outro a Alemanha faz uma ofensiva de verdade e todo mundo sai correndo”. Era muito pessimismo; não combinava com nada do que os jornais diziam. Fiz uma pergunta que era uma objeção: “e a linha Maginot?”. Ele respondeu tranquilamente: “não vale de nada; eles dão a volta.”
A segunda vez foi em S. Paulo, no dia do golpe de novembro, em 1937. Éramos um grupo, ouvíamos pelo rádio a proclamação do Estado Novo. Alguém disse que o golpe era fascista, os integralistas deviam estar no meio dele. Oswald discordou: “Acho que isso é o fim do integralismo; se entrarem nesse golpe a reboque do Getúlio ficarão desmoralizados; essa coisa de Hitler e Hindenburg não funciona aqui: eu conheço o Plínio. Eles acabam tentando um putsch e sendo aniquilados. De qualquer maneira já perderam a vez.”
Muitas outras coisas ele disse, que eram erradas; mas tinha essas iluminações. Inimigo, era um boca-de-inferno sem freio nem barbicacho. Veio do misticismo religioso para outras místicas, inclusive a vermelha; mas acabava sobrando de todas, graças ao seu sólido e fundamental bom senso... anarquista. Esse incansável organizador de movimentos era, no fim das contas, um guerrilheiro solitário, que sempre fez sua guerra por conta própria. Nunca me esquecerei de uma frase, em um romance, em que ele define a situação anárquica de uma cidade durante uma revolta armada: “Sou o único homem livre desta formosa cidade porque tenho um canhão no meu quintal.”
Aquele surpreendente adjetivo “formosa” não é apenas um golpe de estilo: Oswald sempre teve um apaixonado sentimento de beleza, uma adoração dannunziana pela beleza. E quanto ao resto, a história do canhão, quando não fosse a sua verdade seria o seu instinto.