Há quinze anos atrás fui expulso de Porto Alegre; volto agora, graças à lembrança generosa de uns amigos que me chamaram e me agasalham; saio para almoçar e quando regresso ao hotel vejo que há uma carta no meu escaninho. Deve ser de algum amigo antigo que passou por aqui para me dar um abraço. O envelope tem um timbre comercial. Abro, leio:
“Prezado senhor: Aproveitando sua estadia em n/ capital, queremos lembrar ao amigo que, em 1940, quando daqui se retirou, ou talvez em 1939, ficou aberto um débito de Cr$ 480,00, saldo da compra da máquina de escrever Hermes Baby, que o amigo talvez tenha esquecido. Assim é que esperamos que nos faça uma visita em n/ escritório, a fim de aceitarmos o seu débito. Sendo o que nos oferece de momento, ficamos ao seu dispor e subscrevemo-nos atenciosamente Pagetti & Senger, Ltda.”
É claro que fiquei muito comovido com a carta. Fiquei muito comovido, mas não paguei. Não paguei e ainda pensei em responder mais ou menos assim:
Prezados senhores: Em sua estimada carta há um trecho que talvez seja irônico, aquele em que se faz referência a um débito “que o amigo talvez tenha esquecido”. Pois é a pura verdade, o amigo esqueceu mesmo; e nem agora sequer se lembra. Não pretendo pagar esse débito, que é menos meu que do governo ou da polícia. Mas agora percebo porque não morri na guerra, em 44 e 45; os senhores Pagetti & Senger, Ltda., estavam certamente rezando por mim. Onde quer que eu tenha andado, nestes 15 anos de tanta andança, me acompanhava – e esta descoberta me deixa comovido – a saudade da firma, a lembrança da firma, o carinho da firma. Se é certo que todo o material da gente muda de sete em sete anos, duas vezes todas as minhas células mudaram; de vosso devedor de 1939 não resta, portanto, um átomo sequer. Aquele Braga da máquina é um Braga que já nem há, nem é; foi, e foi-se: cobra-lhe essa máquina que também com certeza não existe mais. Até pode ser que tenha sido apreendida quando fui expulso, como arma do crime, pois não fiz outro crime além de escrever. Vosso devedor era um rapaz; eu sou um senhor já um pouco demasiado maduro; e a vossa carta me restitui a essa mocidade, sem me restituir o jovem coração ardente, os sonhos d’alma, a fagueira esperança. Não pago. Adeus.