Não é o desembargador Lourenço Mário Prunes, é o professor Prunes, o apaixonado da geografia, que me leva a Caxias do Sul. E a viagem inteira ele responde com paciência às minhas perguntas, corrige meus palpites, me ensina a ver o que estou olhando. Saímos de Porto Alegre pelo norte, passamos em Esteio, cheio de fábricas, e paramos um pouco em São Leopoldo, já na zona de colonização alemã: é numa esquina da rua dr. Lindolpho Collor que esperamos abrir a fábrica do alemão que faz belos tapetes de couro de boi, mas – diz o encarregado – só por encomenda. Adeus; a orgulhosa cidade de Novo Hamburgo me faz lembrar Viana Moog e também um jornalista daqui que uma vez, para me xingar, usou o infame, porém tipicamente teuto-brasileiro trocadilho de Praga no lugar de Braga. O município é apenas a cidade, a cidade é toda industrial, trabalha principalmente com os couros que vêm da fronteira distante, faz milhões de sapatos, é simpática com seu ar burguês, sua ostentação de igrejas imensas (e o poder temporal, a Prefeitura é uma casa tão humilde), cidade que parece muito asseada, bem calçada, provavelmente monótona, organizada... pergunto a Prunes de que lado é o rio, ele diz que não tem rio; é isso que faz falta, um rio, não sei porque, esses morros me sugerem que entre eles deve correr um rio, mas o dos Sinos, que vem vindo em direção da cidade, de repente muda de ideia, faz uma curva para o sul e deixa Novo Hamburgo sem o elemento lírico, sem o murmúrio vagabundo que levaria um pouco de sonho aos corações, a água preguiçosa refletindo o céu. Talvez por isso o homem de Novo Hamburgo esteja tão ocupado e possa afirmar com a voz dura que é o cidadão municipal deste país que rende mais imposto por cabeça.
Mas me esqueci de falar da coisa principal de São Leopoldo, os quatro espelhos altos, na esquina, para o motorista olhar para todos os quadrantes, prever o que vem à direita e à esquerda, ré, avante.. mas agora já estamos em Novo Hamburgo, é tarde para falar nisso, deixamos a cidade a fazer sapatos, tocamos manhã bela, galgamos uma encosta para chegar a Dois Irmãos. É apenas uma longa, longa rua; Prunes me explica: cada casa ocupa a frente de 30 metros de um antigo lote de centenas de fundo que acaba no ribeirão; quase defronte um do outro, dois hotéis se disputam a glória de fornecer um café com leite mais substancial: xícara profunda, inumeráveis pratos de pães e “cucas”, manteiga, um creme de nata que não sei como se chama, geléia, pão de ló, queijo, mortadela... custa 15 cruzeiros e é uma baita refeição.
Mas agora descemos para o vale do Caí, depois subimos a serra em curvas fechadas e nos detemos um pouco diante de Galópolis. Do alto da penedia uma cascata flui, se lança com indolência, se perde lá embaixo, entre árvores e pedras; à beira do abismo plantaram um renque de árvores: atrás estão as casinhas do vilarejo. Essa paisagem tem uma força estranha, uma dignidade de gravura antiga, imaginada... Mas o professor Prunes me explica: o “véu de noiva” está tão ralo porque a maior parte da água é aproveitada para uma pequena usina elétrica. E atrás das casinhas líricas plantadas à beira do abismo vou descobrir uma imensa fábrica de tecidos de lá. Galópolis não é uma paisagem, é uma indústria. Subimos para Caxias, mas a viagem é comprida e o leitor deve estar cansado. Até amanhã.