Começa outubro; ainda há muitas nêsperas e ameixas amarelas, mas já na feira surgem as boas jabuticabas, de violáceo negrume e alva polpa de excitante sabor. Entrementes foi sancionado o projeto criando a “Petrobrás”. Podia ser melhor, podia ser pior, podia não ser; o fato é que agora a “Petrobrás” existe, e com uma responsabilidade tremenda, exigindo uma imensa capacidade efetiva para arranjar dinheiro e para aplicá-lo, para procurar petróleo e para explorá-lo. Aparecerá alguém capaz de fazer isso no meio desse governo tão frouxo, displicente e impotente?
A crise de energia, fruto de mil pecados da Light e do governo, arruína as indústrias e faz do Rio uma cidade de ruas noturnas feias e tristes. Eu me lembro de uma crônica de Álvaro Moreyra, há muito tempo, em que ele se queixava de que a noite do Rio não tinha mistério, por toda parte havia luz demais. Está para você agora, Alvinho.
E no meio dessa escuridão há casas que esplendem de luzes, avisando com um ar vaidoso que sua iluminação “é de gerador próprio”. Todo mundo que pode, o clube de futebol, o industrial, o comerciante, o parque de diversões, todo mundo vai montando “gerador próprio” – que trabalha com óleo importado, a peso de ouro. Cada ano o consumo do petróleo aumenta 20 por cento; com a crise de energia elétrica o aumento passará a ser mais rápido; e como nossas exportações não aumentam, mas diminuem, acho que não precisaremos esperar cinco anos para que tudo que vendemos dê para comprar apenas petróleo.
Ainda bem que o sr. Vargas afirma que tudo está ótimo, seu governo faz e acontece. Eu, por mim, vou comprar uns pacotes de vela, e me preparar para fazer crônica assim, entre duas velas, como nos nada saudosos tempos com a F.E.B. na Itália. Por falar nisso, a guerra foi lá ou foi aqui? Esses meninos ruins e bobos como o Mauro Guerra, que mata porque acha bonito ou por pirraça, isto, não é uma geração criada na guerra? Ah, estamos no mês do Dia da Criança; e uma amiga, que está fazendo uma série de cartões postais para o Natal, me pediu umas frases a respeito, alguma coisa boa, afetiva, consoladora, estimulante, para mensagem do Natal. Acabei escrevendo um negócio triste, uma história de nascimento de criança pobre que começa no estábulo de Belém e acaba num barraco do Morro do Querosene, defendendo a velha tese de que há algo de divino em cada ser humano e é preciso respeitar e defender em cada um essa parte do anjo. Uma revista dá o retrato do Mauro, do morro Mangueira, de 19 anos, com uma pistola na mão, imitando o Tenório; eis um bom ídolo para as novas gerações. Bem, com certeza eu estou ficando velho; ou então ando meio perturbado com um amor que me deixa ora tão feliz, ora tão infeliz e ora no ora veja.
Mas Deus é grande. Vamos às jabuticabas.