Dizem que o Brasil tem oito mil quilômetros de costa, e como cada um deles tem mil metros, sempre hei de achar razoável que, aos 40 anos de idade, tendo trabalhado mais de 20, eu seja proprietário, como sou, de 22 metros dessa costa. 

Acresce que eles não estão situados na avenida Atlântica, mas em uma pequena praia do Espírito Santo, chamada Marataízes, onde meu pai, como todo bom homem de Cachoeiro, costumava levar sua família nos meses do verão.

Da primeira vez que lá fui, dormi em esteira, em um rancho de palha; quase todos os velhos pescadores de meu tempo já morreram, e dos antigos maratimbas (assim se chama o povo da terra) hoje quase apenas conheço meu compadre Joaquim Capixaba, que está rijo. Lá estive agora; o nordeste continua a soprar à tarde, e a brisa terral à noite; os roceiros continuam a trazer pela praia suas éguas com os cargueiros cheios de abacaxi e melancia, e as canoas dos pescadores continuam a sair pelo mesmo boqueirão, entre pedras, para matar calungas e peroás, pescadas e garoupas, como antigamente. Apenas o que era antes uma pobre aldeia de pescadores é uma florescente praia de veraneio, com eletricidade e outros confortos, especuladores imobiliários e outras pragas.

O que resulta de tudo isso é que meus 22 metros estão ameaçados. Senti que se conspirava contra eles. Um rapazola que é, de longe, meu primo, e que chegou por ali há menos de ano, conversou com outras pessoas espertas. Foi mandado um requerimento à Marinha pedindo as terras que ficam defronte ao meu terreno e aos de outros; isto é: uma pedreira e o mar. Nunca pedi essas terras porque sempre ficou entendido que por ali passaria uma avenida, e como o lugar é estreito, havendo uma avenida não cabe casa alguma, a não ser dentro do mar, que é bravo.

Não pretendo ter o privilégio do mar; ele é de todos, e todos devem ter acesso a suas pedras e praias. Nada me parece mais odioso que fechar um trecho de mar. A pedra e a praia são o último refúgio da democracia, a única riqueza do pobre, a única liberdade do oprimido. Não me esquecerei que durante o Estado Novo, quando os espoletas do sr. Vargas me caçavam como a um perigoso agitador, eu só sentia sossego e só me sentia livre quando, de tanga, na praia, voltava as costas a este país de escravos e birbantes, enchia o peito de ventos, e recitava Baudelaire (“homme libre, toujours tu chériras la mer”) entre dois mergulhos.

O que alguns senhores espertos estão querendo fazer em Marataízes é isto: “grilar” o Oceano Atlântico, estabelecer o monopólio da paisagem e do vento nordeste, e fazer da praia essa coisa obscena, revoltante, que é a propriedade particular sobre o infinito.

É claro que existe a Prefeitura; até acontece que o prefeito é um homem de bem, incapaz de permitir conscientemente uma tal trampolinagem, mesmo que haja funcionários municipais metidos na tramoia. Mas o prefeito pode mudar; o homem da Capitania de Portos já concedeu uma espécie de atestado de posse; os “grileiros” do mar fuxicam incessantemente. Até agora, nesses terrenos de marinha só se construiu uma igreja – o que é justo, e até ficou bonito – e um clube provisório, que foi má ideia e deve ser derrubado porque suja e enfeia o mar. Construir casas particulares ali, tapando o mar, é de um mau gosto tão revoltante e de um egoísmo tão grosseiro que não tenho dúvida: se a Marinha, a Prefeitura, o Estado, a União e a ONU permitirem essa estupidez contra o oceano Atlântico, eu derrubarei à picareta e dinamite o muro infame.

Não estou defendendo apenas meus 22 metros de pedras e ondas, espuma e ventos. Defendo toda uma praia querida, toda uma cidadezinha simples e alegre, bonita e necessária, que a cobiça de alguns espertalhões está querendo estragar. Chegando agora de Marataízes, eu, que afinal nunca liguei para meus bens nem para meus males, confesso-me revoltado. Façam suas sujeiras, cavalheiros – mas, por favor, não sujem no mar!

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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