Uma senhora que mora na Alameda dos Parecis, no Alto de Indianópolis, São Paulo, me escreve sobre os problemas de seu bairro. Começa falando bem: as casas são pequenas, mas bonitas e confortáveis; “residências da classe média, como bancários, professores, funcionários, etc., tudo gente que tem amor no lar, senhoras que auxiliam os maridos para melhorar de vida, que gostam de enfeitar suas casinhas e cuidar de seus jardins”.
Creio que a minha missivista é, ela mesma, funcionária – e dos Correios. Deve ser uma estimável senhora de origem alemã que além de trabalhar na repartição ainda procura alegrar a vida do marido cuidando das cortinas, das begônias e dos tinhorões. “Depois do trabalho na cidade a gente quer sossego”...
E aqui está o drama do Alto de Indianópolis: não há sossego. Circos ambulantes, que sempre aparecem por ali, instalam alto-falantes e enchem o bairro com seu berreiro. Devo confessar, minha senhora, que sou a favor dos circos, mesmo de uma “trupe” de última categoria como a que agora está em seu bairro. Mas acontece que os circos de minha infância não usavam alto-falantes; eram anunciados pelos artistas que desfilavam pela cidade, o palhaço sempre montado de frente para o rabo do cavalo, sempre “ladrão de mulher”.
O alto-falante é, na verdade, um dos grandes suplícios da vida do brasileiro do interior. Mesmo em cidades maiores, como Belo Horizonte, ele ainda funciona em lugares centrais. Em milhares de cidades do interior existe esse tormento na praça principal, irradiando discos e anúncios de lojas de armarinhos. Fui passar um fim de semana em Cabo Frio e no lugar do murmúrio do mar ouvi marchinhas e anúncios. Na cidade do Salvador, meu amigo Carybé alugou um último andar de um velho sobrado no Largo de Sant'Ana, dando para a igrejinha e o mar; um alto-falante o atormenta o dia inteiro. Reclamações não adiantam nunca: a concessão do alto-falante é feita a cabos eleitorais. A mesquinharia da vida política brasileira é responsável por mais esse flagelo barato.
Domingo, nas praças humildes das cidadezinhas do interior, no lugar da honesta retreta da “lira de ouro” local – os casais de namorados ouvem os berros do alto-falante. Os locutores improvisados imitam os das grandes emissoras do Rio, com todo seu pedantismo e todas suas gracinhas baratas. O interior do Brasil perde o sossego e o caráter; os caboclos da roça pegam a viola para tocar guarachas e mambos. O alto-falante é uma cavação de protegidos políticos para trazer para a praça pública uma imitação do mau gosto do rádio do vizinho.
O Brasil do interior está se enfeando, se corrompendo, se banalizando com uma velocidade tremenda. Minha leitora do Alto de Indianópolis, tenha paciência: o mal não é do bairro, é do país. Se a senhora deseja sossego, silêncio, repouso, vá morar em uma cidade como Londres ou Paris…